O Tempo

"O tempo! O passado! Aí algo, uma voz, um canto, um perfume ocasional levanta em minha alma o pano de boca das minhas recordações... Aquilo que fui e nunca mais serei! Aquilo que tive, e não tornarei a ter! Os mortos! Os mortos que me amaram na minha infância. Quando os evoco toda a alma me esfria e eu sinto-me desterrado de corações, sozinho na noite de mim próprio, chorando como um mendigo o silêncio fechado de todas as portas."
........................................................................................................................ Fernando Pessoa

agosto 18, 2015

Posto de vigia

Havia já algum tempo que tencionava levar minha mãe ao largo dos Penedos da Índia para lhe mostrar o elevador. Fiquei na dúvida se teria captado a sua imagem, mas vim com a certeza de que quando ali chegou recuou mais de 80 anos  no tempo. Levantando a bengala apontou ao muro repetindo com vivacidade a estória que tantas vezes ouvi, contada sempre da mesma maneira:   - “ Era  neste muro que meu pai ficava sentado toda a noite com os olhos postos na baía, à espera de receber um sinal de lanterna emitido pelas armações de pesca a informar que havia peixe a bordo. E ele respondia acendendo a lanterna dele confirmando que a mensagem fora recebida. E dali partia para avisar de casa em casa, a tripulação de terra de que havia peixe para descarregar. Em breves minutos todos corriam à praia embriagados pelo sono interrompido” - Fez-se um silêncio frente ao palco onde a cena se desenrolava, e o meu pensamento arrastado pelo vôo vertiginoso das asas do tempo, recuou quase 40 anos, ao sentir pela primeira vez o esforço que o meu avô fazia para se manter acordado, velando a baía coberta pelo manto escuro e silencioso da noite, quebrado pelo dolente marulhar das ondas.
Decorria o ano de 1978 e eu dava os meus primeiros passos como  caixeira de mar. O meu chefe entregou-me ao final da tarde 1 walkie-talkie e instruiu-me para ficar atenta ao navio que se encontrava fundeado, pois a qualquer hora da noite poderia receber instruções de atracação, e ele queria ser imediatamente informado.
Fiquei satisfeita com a prova de confiança que acabava de receber. Mas ao cair da noite, já entregue a mim própria, comecei a desconfiar do rádio…não se ouvia nada... Não haveria qualquer operação no porto?  Ou o rádio não estava a funcionar? Pouco segura da responsabilidade que tinha assumido, subi a rua Teófilo Braga até ao largo dos Penedos da Índia. Lá estavam as luzinhas fracas que se balouçavam como se estivessem num berço que por escassos instantes desaparecia na cava das ondas. E ali fiquei toda a noite no posto de vigia do meu avô, que não conheci, velando a mesma baía e com o mesmo propósito de zelo: "correr para avisar".






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