O Tempo

"O tempo! O passado! Aí algo, uma voz, um canto, um perfume ocasional levanta em minha alma o pano de boca das minhas recordações... Aquilo que fui e nunca mais serei! Aquilo que tive, e não tornarei a ter! Os mortos! Os mortos que me amaram na minha infância. Quando os evoco toda a alma me esfria e eu sinto-me desterrado de corações, sozinho na noite de mim próprio, chorando como um mendigo o silêncio fechado de todas as portas."
........................................................................................................................ Fernando Pessoa

outubro 18, 2015

Reflexão

A única vantagem da idade é o tempo. Sobretudo quando temos a capacidade de discernir sobre ele e, pasme-se, até de, vitalmente, o esquecer. (...) Há um passado que passou ... e há o passado que ficou, quase diria esplendoroso, que me fortaleceu, me deu ânimo, me fez sorrir, que, enfim, ajudou a fazer de mim a mulher que hoje sou. Esse vive no meu dia-a-dia e vem abraçar-me sempre que dele preciso.
                                                                                                                                                                    
                                                                                                                                                                       Helena Sacadura Cabral




agosto 18, 2015

Posto de vigia

Havia já algum tempo que tencionava levar minha mãe ao largo dos Penedos da Índia para lhe mostrar o elevador. Fiquei na dúvida se teria captado a sua imagem, mas vim com a certeza de que quando ali chegou recuou mais de 80 anos  no tempo. Levantando a bengala apontou ao muro repetindo com vivacidade a estória que tantas vezes ouvi, contada sempre da mesma maneira:   - “ Era  neste muro que meu pai ficava sentado toda a noite com os olhos postos na baía, à espera de receber um sinal de lanterna emitido pelas armações de pesca a informar que havia peixe a bordo. E ele respondia acendendo a lanterna dele confirmando que a mensagem fora recebida. E dali partia para avisar de casa em casa, a tripulação de terra de que havia peixe para descarregar. Em breves minutos todos corriam à praia embriagados pelo sono interrompido” - Fez-se um silêncio frente ao palco onde a cena se desenrolava, e o meu pensamento arrastado pelo vôo vertiginoso das asas do tempo, recuou quase 40 anos, ao sentir pela primeira vez o esforço que o meu avô fazia para se manter acordado, velando a baía coberta pelo manto escuro e silencioso da noite, quebrado pelo dolente marulhar das ondas.
Decorria o ano de 1978 e eu dava os meus primeiros passos como  caixeira de mar. O meu chefe entregou-me ao final da tarde 1 walkie-talkie e instruiu-me para ficar atenta ao navio que se encontrava fundeado, pois a qualquer hora da noite poderia receber instruções de atracação, e ele queria ser imediatamente informado.
Fiquei satisfeita com a prova de confiança que acabava de receber. Mas ao cair da noite, já entregue a mim própria, comecei a desconfiar do rádio…não se ouvia nada... Não haveria qualquer operação no porto?  Ou o rádio não estava a funcionar? Pouco segura da responsabilidade que tinha assumido, subi a rua Teófilo Braga até ao largo dos Penedos da Índia. Lá estavam as luzinhas fracas que se balouçavam como se estivessem num berço que por escassos instantes desaparecia na cava das ondas. E ali fiquei toda a noite no posto de vigia do meu avô, que não conheci, velando a mesma baía e com o mesmo propósito de zelo: "correr para avisar".






fevereiro 06, 2015

Já somos duas!





"Já não tenho paciência para algumas coisas, não porque me tenha tornado arrogante, mas simplesmente porque cheguei a um ponto da minha vida em que não me apetece perder mais tempo com aquilo que me desagrada ou fere.

Já não tenho pachorra para cinismo, críticas em excesso e exigências de qualquer natureza.


Perdi a vontade de agradar a quem não agrado, de amar quem não me ama, de sorrir para quem...quer retirar-me o sorriso.


Já não dedico um minuto que seja a quem me mente ou quer manipular. Decidi não conviver mais com pretensiosismo, hipocrisia, desonestidade e elogios baratos. Já não consigo tolerar eruditismo  selectivo e altivez académica.


Não compactuo mais com bairrismo ou coscuvilhice. Não suporto conflitos e comparações.

Acredito num mundo de opostos e por isso evito pessoas de carácter rígido e inflexível. Na amizade desagrada-me a falta de lealdade e a traição.

Não lido nada bem com quem não sabe elogiar ou incentivar.


Os exageros aborrecem-me e tenho dificuldade em aceitar quem não gosta de animais.


E acima de tudo já não tenho paciência nenhuma para quem não merece a minha paciência."


Meryl Streep





janeiro 06, 2015

Cantares de Janeiras

Teria os meus cinco anos quando pela primeira vez ouvi os cantares de Reis ou de Janeiras. Morava então num 1º andar da Travessa da Lanchinha.
Minha mãe amassava as filhoses à luz de um candeeiro a petróleo, enquanto eu e o meu irmão brincávamos por perto e até onde a escassa luz amarelada se diluía no escuro dos recantos da cozinha.  
De repente soam pancadas fortes na porta e ouvem-se vozes e risos lá fora. Lembro-me de ter ficado muito assustada.
- Não se assustem – disse minha mãe – é o pai e uns amigos que vieram cantar as Janeiras à nossa porta. 
E a cantoria começou ao som de alguns instrumentos.
A última quadra ( que vim a aprender mais tarde ) dizia:

Senhora dona de casa
Deixe-se estar que está bem
Mande dar a sua esmola
Pela jóia que aí tem

E aqui já a minha mãe tinha metido num talego um chouriço, um bocado de pão e algumas laranjas para nós irmos oferecer.
O escuro da noite e os enormes capotes que os protegiam do frio, davam ao grupo um ar fantasmagórico que só foi quebrado quando ouvi a voz de meu pai.

E lá seguiram batendo e cantando a outras portas saudando os donos da casa, para angariar mais “esmolas” que acabariam num bom e alegre petisco!