O Tempo

"O tempo! O passado! Aí algo, uma voz, um canto, um perfume ocasional levanta em minha alma o pano de boca das minhas recordações... Aquilo que fui e nunca mais serei! Aquilo que tive, e não tornarei a ter! Os mortos! Os mortos que me amaram na minha infância. Quando os evoco toda a alma me esfria e eu sinto-me desterrado de corações, sozinho na noite de mim próprio, chorando como um mendigo o silêncio fechado de todas as portas."
........................................................................................................................ Fernando Pessoa

janeiro 22, 2014

S. Martinho

Depois da morte da minha avó nunca mais tinha voltado à casa que me viu nascer. Passaram 40 anos!
Fustigada pelos ventos invernosos do sul, a cor das paredes foi-se esbatendo, e o ar de abandono foi tomando conta de si. Era muito grande e carregava as marcas do peso de mais de 2 séculos de existência… Um desafio que não estava ao alcance dos seus proprietários.
Sempre que passava junto ao mar, erguia a cabeça para a cumprimentar, a que ela correspondia acenando com as minhas memórias de infância, que continuava a guardar zelosamente no silêncio do tempo.
Um dia o meu olhar ficou preso às letras gigantes que se estendiam ao longo da varanda: VENDE-SE.
Que estranha sensação, parecia que me estavam a vender a alma.
Passaram alguns meses até me contarem que iria ser restaurada. Senti-me aliviada. Não queria imaginar outro desfecho!
No S. Martinho, pela mão de uns amigos, fui convidada pela nova proprietária a visitar a casa. Voltarmos aos locais onde crescemos em harmonia, é uma bênção que a vida nos dá. Em cada recanto fui encontrando memórias vivas que o tempo preservou. Quase tudo estava como eu tinha deixado, enriquecido agora pelo toque do restauro. Até a baía parecia que tinha acabado de acordar dum sono longo e profundo quando me viu debruçada da varanda, onde tantas vezes senti o pulsar de um poema.
- Saúde! – dissemos em coro à volta da mesa grande da cozinha, erguendo os copos de água-pé, acompanhados de castanhas assadas que a dona da casa tinha muito gentilmente preparado. Posso dizer que não retive mais nada do que ali foi dito. Aquela luz ténue amarelada transportou-me a outros "S. Martinhos", e por momentos, senti que não estava só. Era como que se os meus antepassados também tivessem sido convidados para a festa. O ambiente criado envolveu-se com as lembranças de muitos momentos de convívio ali vividos, que os velhos barrotes de madeira que sustêm o tecto ainda abrigam.
- Volte sempre que quiser - foram as palavras que guardei à saída. Mas se saudade levava quando entrei, maior era a saudade que trazia quando saí…
Vou contentar-me em acenar-lhe ao longe sempre que passar junto à praia, na certeza de que ela guardará para todo o sempre, as minhas mais belas memórias de infância.