O Tempo

"O tempo! O passado! Aí algo, uma voz, um canto, um perfume ocasional levanta em minha alma o pano de boca das minhas recordações... Aquilo que fui e nunca mais serei! Aquilo que tive, e não tornarei a ter! Os mortos! Os mortos que me amaram na minha infância. Quando os evoco toda a alma me esfria e eu sinto-me desterrado de corações, sozinho na noite de mim próprio, chorando como um mendigo o silêncio fechado de todas as portas."
........................................................................................................................ Fernando Pessoa

julho 13, 2013

A Lancha

“Maria Judite” foi o nome dado à lancha do meu avô Carlos. Era o nome da sua primeira neta, a única que herdou o azul cristalino dos seus olhos. Até ali pescava num pequeno bote a remos, que pela sua fragilidade, não permitia que se afastasse da baía.
Conscientes de que a força dos braços do avô também já não transmitia energia às pás dos remos como outrora, os filhos, carpinteiros de profissão, construíram-lhe uma lancha movida a motor. Lembro-me da sua construção e do dia em que, vestida de um azul forte, foi arrastada até à praia para ser lançada ao mar.
Numa tarde de domingo de verão o avô organizou um passeio de lancha com os netos. Sinto-me envergonhada quando penso que, por culpa minha, o passeio foi muito curto pois os meus gritos de pânico quando via as ondas crescerem frente à proa da lancha, deixaram o meu avô muito nervoso, e no espaço de pouco mais de meia hora, já estávamos todos em terra.
Os meus primos não me perdoaram!


 

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