O Tempo

"O tempo! O passado! Aí algo, uma voz, um canto, um perfume ocasional levanta em minha alma o pano de boca das minhas recordações... Aquilo que fui e nunca mais serei! Aquilo que tive, e não tornarei a ter! Os mortos! Os mortos que me amaram na minha infância. Quando os evoco toda a alma me esfria e eu sinto-me desterrado de corações, sozinho na noite de mim próprio, chorando como um mendigo o silêncio fechado de todas as portas."
........................................................................................................................ Fernando Pessoa

julho 28, 2013

Envelhecer

Uma pessoa envelhece lentamente: primeiro envelhece o seu gosto pela vida e pelas pessoas, sabes, pouco a pouco torna-se tudo tão real, conhece o significado das coisas, tudo se repete tão terrível e fastidiosamente. Isso também é velhice. Quando já sabe que um corpo não é mais que um corpo. E um homem, coitado, não é mais que um homem, um ser mortal, faça o que fizer... Depois envelhece o seu corpo; nem tudo ao mesmo tempo, não, primeiro envelhecem os olhos, ou as pernas, o estômago, ou o coração. Uma pessoa envelhece assim, por partes. A seguir, de repente, começa a envelhecer a alma: porque por mais enfraquecido e decrépito que seja o corpo, a alma ainda está repleta de desejos e de recordações, busca e deleita-se, deseja o prazer. E quando acaba esse desejo de prazer, nada mais resta que as recordações, ou a vaidade; e então é que se envelhece de verdade, fatal e definitivamente. Um dia acordas e esfregas os olhos: já não sabes porque acordaste. O que o dia te traz, conheces tu com exactidão: a Primavera ou o Inverno, os cenários habituais, o tempo, a ordem da vida. Não pode acontecer nada de inesperado: não te surpreeende nem o imprevisto, nem o invulgar ou o horrível, porque conheces todas as probabilidades, tens tudo calculado, já não esperas nada, nem o bem, nem o mal... e isso é precisamente a velhice.

Sándor Márai, in 'As Velas Ardem Até ao Fim'






julho 21, 2013

julho 13, 2013

A Lancha

“Maria Judite” foi o nome dado à lancha do meu avô Carlos. Era o nome da sua primeira neta, a única que herdou o azul cristalino dos seus olhos. Até ali pescava num pequeno bote a remos, que pela sua fragilidade, não permitia que se afastasse da baía.
Conscientes de que a força dos braços do avô também já não transmitia energia às pás dos remos como outrora, os filhos, carpinteiros de profissão, construíram-lhe uma lancha movida a motor. Lembro-me da sua construção e do dia em que, vestida de um azul forte, foi arrastada até à praia para ser lançada ao mar.
Numa tarde de domingo de verão o avô organizou um passeio de lancha com os netos. Sinto-me envergonhada quando penso que, por culpa minha, o passeio foi muito curto pois os meus gritos de pânico quando via as ondas crescerem frente à proa da lancha, deixaram o meu avô muito nervoso, e no espaço de pouco mais de meia hora, já estávamos todos em terra.
Os meus primos não me perdoaram!