O Tempo

"O tempo! O passado! Aí algo, uma voz, um canto, um perfume ocasional levanta em minha alma o pano de boca das minhas recordações... Aquilo que fui e nunca mais serei! Aquilo que tive, e não tornarei a ter! Os mortos! Os mortos que me amaram na minha infância. Quando os evoco toda a alma me esfria e eu sinto-me desterrado de corações, sozinho na noite de mim próprio, chorando como um mendigo o silêncio fechado de todas as portas."
........................................................................................................................ Fernando Pessoa

março 06, 2013

Estórias do Alto Mar


Parece que ainda há pouco a noite caía… e já a madrugada me espreita através dos vidros baços que separam o doce calor da lareira, da noite fria e húmida que se pressente lá fora.
Passo a mão pelo vidro gelado e vejo ao longe um conjunto de pequenas luzes que aparecem e desaparecem na cava das ondas. Vem-me à memória a estória que o Comandante Manuel Borges , um velho lobo do mar, contava com muita graça sobre uma das muitas consoadas que passou no alto mar.
- Era noite de Natal. Navegávamos no atlântico num navio carregado de contentores rumo a Inglaterra, e fomos surpreendidos por uma forte tempestade com ondas de 7 a 8 metros que varriam o convés. Depois de nos assegurarmos de que a carga estava bem espiada,  eu
e a minha tripulação reunimo-nos à mesa para saborearmos o peru da consoada que o cozinheiro de bordo tinha preparado com muito zelo. Uma grande panela é levada para a mesa com o peru já trinchado. Uma vez na mesa foi a atracção da noite, pois a panela deslizava e saltava na mesa de uma ponta á outra movida pela forte ondulação que sacudia o navio. Para se apanhar o peru, que mais parecia que ainda estava vivo, aguardava-se a próxima onda… - dizia ele entre risos com um brilho nos olhos.
- E assim, entre francas gargalhadas e um copo de bom vinho guardado para a ocasião, aqueles homens, dos quais não me excluo, frágeis e entregues ao capricho da sorte ou do azar, esqueceram por momentos o medo de não voltarem a abraçar os que levavam no coração.





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