O Tempo

"O tempo! O passado! Aí algo, uma voz, um canto, um perfume ocasional levanta em minha alma o pano de boca das minhas recordações... Aquilo que fui e nunca mais serei! Aquilo que tive, e não tornarei a ter! Os mortos! Os mortos que me amaram na minha infância. Quando os evoco toda a alma me esfria e eu sinto-me desterrado de corações, sozinho na noite de mim próprio, chorando como um mendigo o silêncio fechado de todas as portas."
........................................................................................................................ Fernando Pessoa

março 22, 2013

Barco Negro


 
   
Anos 60! A praia de Sines atingia o seu auge em popularidade pela sua indiscutível beleza.
A música romântica da época envolvia-se com o cheiro a maresia, fazendo pulsar os corações dos mais velhos e marcando a memória dos mais pequeninos. A Amália, o Tristão da Silva, o Luís Piçarra, entre outros, eram ouvidos repetidamente ao longo do dia, através do altifalante instalado numa pequena barraca, onde eram passados os discos da preferência dos ouvintes. O tema Barco Negro era um dos mais pedidos. Sempre que o ouço, recuo à minha infancia onde me encontro com pedaços desses verões que a minha memória carinhosamente guardou.

março 16, 2013

Guarda-chuva


Em dias de chuva e vento, é comum encontrarmos abandonados pelo caminho guarda-chuvas com as varetas partidas e completamente torcidas. É tal o estado de desespero em que as pessoas ficam, que os abandonam ali mesmo, vergados pela impotência que sentem sob as rajadas de vento e a chuva pesada que os ensopa da cabeça aos pés.
Num dia desses, ao passar pelo que sobrou de um chapéu abandonado, veio-me à memória a figura do “Ti Manel dos Bigodes”. Aos meus olhos de criança já era velhote. Usava um grande bigode, que certamente deu origem à alcunha. De quando em quando passava à minha rua tocando ferrinhos anunciando a sua presença ali. Ao ombro, a descair sobre as costas, um rolo de folha de alumínio, alguns chapéus de chuva velhos para aproveitar as varetas. Na mão, uma caixa de madeira com ferramentas, que pousava junto aos poiais das portas onde se sentava para trabalhar.
Um alguidar de barro já rachado para ser reforçado com “gatos” e cal, um chapéu de chuva para ser reparado, ou até mesmo um tacho de alumínio para ser remendado ou levar um fundo novo, passavam por aquelas mãos calejadas que, habilidosamente, por umas escassas moedas, lhes prolongava o tempo de uso.
Tempos magros... em que tudo era aproveitado ao máximo.
Umas moedas mal gastas fariam diferença no pão de cada dia.
Até há pouco tempo olhava esse passado com muito respeito e carinho. Hoje, penso nele com alguma apreensão em relação ao futuro.



 

março 06, 2013

Eu aprendi

 
Que "A experiência é uma lanterna dependurada nas costas que apenas ilumina o caminho já percorrido."





 

Estórias do Alto Mar


Parece que ainda há pouco a noite caía… e já a madrugada me espreita através dos vidros baços que separam o doce calor da lareira, da noite fria e húmida que se pressente lá fora.
Passo a mão pelo vidro gelado e vejo ao longe um conjunto de pequenas luzes que aparecem e desaparecem na cava das ondas. Vem-me à memória a estória que o Comandante Manuel Borges , um velho lobo do mar, contava com muita graça sobre uma das muitas consoadas que passou no alto mar.
- Era noite de Natal. Navegávamos no atlântico num navio carregado de contentores rumo a Inglaterra, e fomos surpreendidos por uma forte tempestade com ondas de 7 a 8 metros que varriam o convés. Depois de nos assegurarmos de que a carga estava bem espiada,  eu
e a minha tripulação reunimo-nos à mesa para saborearmos o peru da consoada que o cozinheiro de bordo tinha preparado com muito zelo. Uma grande panela é levada para a mesa com o peru já trinchado. Uma vez na mesa foi a atracção da noite, pois a panela deslizava e saltava na mesa de uma ponta á outra movida pela forte ondulação que sacudia o navio. Para se apanhar o peru, que mais parecia que ainda estava vivo, aguardava-se a próxima onda… - dizia ele entre risos com um brilho nos olhos.
- E assim, entre francas gargalhadas e um copo de bom vinho guardado para a ocasião, aqueles homens, dos quais não me excluo, frágeis e entregues ao capricho da sorte ou do azar, esqueceram por momentos o medo de não voltarem a abraçar os que levavam no coração.