O Tempo

"O tempo! O passado! Aí algo, uma voz, um canto, um perfume ocasional levanta em minha alma o pano de boca das minhas recordações... Aquilo que fui e nunca mais serei! Aquilo que tive, e não tornarei a ter! Os mortos! Os mortos que me amaram na minha infância. Quando os evoco toda a alma me esfria e eu sinto-me desterrado de corações, sozinho na noite de mim próprio, chorando como um mendigo o silêncio fechado de todas as portas."
........................................................................................................................ Fernando Pessoa

outubro 23, 2013

Eu aprendi

Que saber rir de nós próprios, retira fragilidade à força que nos anima entre o querer e o poder.


 
 
 
 

outubro 21, 2013

Intacta Memória

Intacta memória — se eu chamasse
Uma por uma as coisas que adorei
Talvez que a minha vida regressasse
Vencida pelo amor com que a lembrei.
 
Sophia de Mello Breyner Andresen
 



outubro 16, 2013

Espelho Meu

A maior parte das pessoas não gosta de se olhar no espelho, pois raramente gosta da imagem que ele reflete, que é a sua!
É difícil vermo-nos e aceitarmo-nos como os outros nos veem. E à medida que os anos passam, a insatisfação aumenta. Aquela cara, as rugas, os kilos a mais ou a menos…. E porquê? Porque a tendência é julgarmos as pessoas pelo seu aspeto superficial. Felizmente que quando temos a oportunidade de as conhecer na verdadeira acessão da palavra, a sua personalidade e características comportamentais ganham tal força, que conseguem dissimular muitas das imperfeições por mais evidentes que sejam.
Quando reflito sobre este assunto, lembro-me sempre de uma colega que tive que nasceu estrábica. Nos primeiros contactos evitava olhá-la nos olhos. Tinha dificuldade em perceber a direção que o olhar dela tomava. Já tinham passado muitos anos quando ela se sujeitou a uma intervenção cirúrgica, tendo corrigido o problema. Com visível satisfação perguntou a minha opinião, e eu hesitei na resposta. Ela pretendia partilhar comigo a libertação de uma angústia que tinha carregado toda a vida, de uma imperfeição que há muito eu  tinha deixado de ver...


agosto 25, 2013

Tu

Hás-de ficar sempre
Comigo em pensamento
Dentro da alma
Mais solta e mais leve
                    do que o vento

Como as borboletas
Que esvoaçam pelos ares
Hei-de sentir-te bater
Bem no fundo
Como se tudo
                    se abrisse

Ou se fechasse para o Mundo
Assim, em espuma
Esbranqueada pelos mares!
Hei-de ouvir
Essas gaivotas a piar
                    p´la madrugada

Num bando calmo
E de manso apelo
                    ao nada

Como se ouvisse
Alguém por ti chamar!
E a noite, essa,
Há-de cair sombria
Nos meus versos
                    cheios de mágoa

E só tu gaivota
Hás-de voltar
                    voando

Com os olhos rasos de água
E aquecer na areia
                    o frio do meu olhar! ...


                                                                                Da minha grande amiga
                                                                                         Fátima Nunes


julho 28, 2013

Envelhecer

Uma pessoa envelhece lentamente: primeiro envelhece o seu gosto pela vida e pelas pessoas, sabes, pouco a pouco torna-se tudo tão real, conhece o significado das coisas, tudo se repete tão terrível e fastidiosamente. Isso também é velhice. Quando já sabe que um corpo não é mais que um corpo. E um homem, coitado, não é mais que um homem, um ser mortal, faça o que fizer... Depois envelhece o seu corpo; nem tudo ao mesmo tempo, não, primeiro envelhecem os olhos, ou as pernas, o estômago, ou o coração. Uma pessoa envelhece assim, por partes. A seguir, de repente, começa a envelhecer a alma: porque por mais enfraquecido e decrépito que seja o corpo, a alma ainda está repleta de desejos e de recordações, busca e deleita-se, deseja o prazer. E quando acaba esse desejo de prazer, nada mais resta que as recordações, ou a vaidade; e então é que se envelhece de verdade, fatal e definitivamente. Um dia acordas e esfregas os olhos: já não sabes porque acordaste. O que o dia te traz, conheces tu com exactidão: a Primavera ou o Inverno, os cenários habituais, o tempo, a ordem da vida. Não pode acontecer nada de inesperado: não te surpreeende nem o imprevisto, nem o invulgar ou o horrível, porque conheces todas as probabilidades, tens tudo calculado, já não esperas nada, nem o bem, nem o mal... e isso é precisamente a velhice.

Sándor Márai, in 'As Velas Ardem Até ao Fim'






julho 21, 2013

julho 13, 2013

A Lancha

“Maria Judite” foi o nome dado à lancha do meu avô Carlos. Era o nome da sua primeira neta, a única que herdou o azul cristalino dos seus olhos. Até ali pescava num pequeno bote a remos, que pela sua fragilidade, não permitia que se afastasse da baía.
Conscientes de que a força dos braços do avô também já não transmitia energia às pás dos remos como outrora, os filhos, carpinteiros de profissão, construíram-lhe uma lancha movida a motor. Lembro-me da sua construção e do dia em que, vestida de um azul forte, foi arrastada até à praia para ser lançada ao mar.
Numa tarde de domingo de verão o avô organizou um passeio de lancha com os netos. Sinto-me envergonhada quando penso que, por culpa minha, o passeio foi muito curto pois os meus gritos de pânico quando via as ondas crescerem frente à proa da lancha, deixaram o meu avô muito nervoso, e no espaço de pouco mais de meia hora, já estávamos todos em terra.
Os meus primos não me perdoaram!


 

março 22, 2013

Barco Negro


 
   
Anos 60! A praia de Sines atingia o seu auge em popularidade pela sua indiscutível beleza.
A música romântica da época envolvia-se com o cheiro a maresia, fazendo pulsar os corações dos mais velhos e marcando a memória dos mais pequeninos. A Amália, o Tristão da Silva, o Luís Piçarra, entre outros, eram ouvidos repetidamente ao longo do dia, através do altifalante instalado numa pequena barraca, onde eram passados os discos da preferência dos ouvintes. O tema Barco Negro era um dos mais pedidos. Sempre que o ouço, recuo à minha infancia onde me encontro com pedaços desses verões que a minha memória carinhosamente guardou.

março 16, 2013

Guarda-chuva


Em dias de chuva e vento, é comum encontrarmos abandonados pelo caminho guarda-chuvas com as varetas partidas e completamente torcidas. É tal o estado de desespero em que as pessoas ficam, que os abandonam ali mesmo, vergados pela impotência que sentem sob as rajadas de vento e a chuva pesada que os ensopa da cabeça aos pés.
Num dia desses, ao passar pelo que sobrou de um chapéu abandonado, veio-me à memória a figura do “Ti Manel dos Bigodes”. Aos meus olhos de criança já era velhote. Usava um grande bigode, que certamente deu origem à alcunha. De quando em quando passava à minha rua tocando ferrinhos anunciando a sua presença ali. Ao ombro, a descair sobre as costas, um rolo de folha de alumínio, alguns chapéus de chuva velhos para aproveitar as varetas. Na mão, uma caixa de madeira com ferramentas, que pousava junto aos poiais das portas onde se sentava para trabalhar.
Um alguidar de barro já rachado para ser reforçado com “gatos” e cal, um chapéu de chuva para ser reparado, ou até mesmo um tacho de alumínio para ser remendado ou levar um fundo novo, passavam por aquelas mãos calejadas que, habilidosamente, por umas escassas moedas, lhes prolongava o tempo de uso.
Tempos magros... em que tudo era aproveitado ao máximo.
Umas moedas mal gastas fariam diferença no pão de cada dia.
Até há pouco tempo olhava esse passado com muito respeito e carinho. Hoje, penso nele com alguma apreensão em relação ao futuro.



 

março 06, 2013

Eu aprendi

 
Que "A experiência é uma lanterna dependurada nas costas que apenas ilumina o caminho já percorrido."





 

Estórias do Alto Mar


Parece que ainda há pouco a noite caía… e já a madrugada me espreita através dos vidros baços que separam o doce calor da lareira, da noite fria e húmida que se pressente lá fora.
Passo a mão pelo vidro gelado e vejo ao longe um conjunto de pequenas luzes que aparecem e desaparecem na cava das ondas. Vem-me à memória a estória que o Comandante Manuel Borges , um velho lobo do mar, contava com muita graça sobre uma das muitas consoadas que passou no alto mar.
- Era noite de Natal. Navegávamos no atlântico num navio carregado de contentores rumo a Inglaterra, e fomos surpreendidos por uma forte tempestade com ondas de 7 a 8 metros que varriam o convés. Depois de nos assegurarmos de que a carga estava bem espiada,  eu
e a minha tripulação reunimo-nos à mesa para saborearmos o peru da consoada que o cozinheiro de bordo tinha preparado com muito zelo. Uma grande panela é levada para a mesa com o peru já trinchado. Uma vez na mesa foi a atracção da noite, pois a panela deslizava e saltava na mesa de uma ponta á outra movida pela forte ondulação que sacudia o navio. Para se apanhar o peru, que mais parecia que ainda estava vivo, aguardava-se a próxima onda… - dizia ele entre risos com um brilho nos olhos.
- E assim, entre francas gargalhadas e um copo de bom vinho guardado para a ocasião, aqueles homens, dos quais não me excluo, frágeis e entregues ao capricho da sorte ou do azar, esqueceram por momentos o medo de não voltarem a abraçar os que levavam no coração.





fevereiro 25, 2013

Rabiscos de Amor


Se alguém me perguntar
Qual a palavra
Que à vida dá sabor,
Juntarei 4 letrinhas
Formando a palavra AMOR.

Amor
Que palavra tão bonita
Que apesar de pequenina
Tem um sentido abrangente.
Um abraço comovido
Uma palavra ao ouvido
Faz a alegria da gente!
Há formas de amar tão diferentes
E em força tão iguais...
Mas para mim o mais belo
O mais puro e o mais sincero,
É o amor dos meus pais!