O Tempo

"O tempo! O passado! Aí algo, uma voz, um canto, um perfume ocasional levanta em minha alma o pano de boca das minhas recordações... Aquilo que fui e nunca mais serei! Aquilo que tive, e não tornarei a ter! Os mortos! Os mortos que me amaram na minha infância. Quando os evoco toda a alma me esfria e eu sinto-me desterrado de corações, sozinho na noite de mim próprio, chorando como um mendigo o silêncio fechado de todas as portas."
........................................................................................................................ Fernando Pessoa

agosto 28, 2012

Era assim ...


Há dias assisti à apresentação do livro intitulado "DEIXEM  FALAR  AS  PEDRAS" da autoria do jovem escritor David Machado.
Quem como eu passou pelo Estado Novo bastou olhar a capa do livro composta por notas rasuradas, para relembrar a ausência de liberdade de expressão em que assentava a nossa conduta.
Aterrorizava-nos a ideia de numa madrugada qualquer soarem  na porta as pancadas fortes de quem vinha mandatado para dar ordem de prisão.
E porquê?
Muitas vezes alguém que  apenas tinha lamentado as dificuldades no sustento da família.
O medo  pairava em todas as casas e as  crianças  cresciam absorvendo esse sentimento. Quando algum de nós pronunciava qualquer frase, com ou sem intenção de criticar o regime, havia sempre uma voz mais prudente que dizia: "Vamos ficar por aqui porque as paredes também têm ouvidos".
Até o nosso melhor vizinho podia ser um delator...


Que os jovens escritores acreditem nas nossas narrações e passem o testemunho,  é o que todos devemos desejar, para que as novas gerações empenhadas na construção do futuro, tenham sempre presentes as duras experiências dum amargo passado.