O Tempo

"O tempo! O passado! Aí algo, uma voz, um canto, um perfume ocasional levanta em minha alma o pano de boca das minhas recordações... Aquilo que fui e nunca mais serei! Aquilo que tive, e não tornarei a ter! Os mortos! Os mortos que me amaram na minha infância. Quando os evoco toda a alma me esfria e eu sinto-me desterrado de corações, sozinho na noite de mim próprio, chorando como um mendigo o silêncio fechado de todas as portas."
........................................................................................................................ Fernando Pessoa

fevereiro 08, 2012

Desafio



Terminadas as aulas  e concluido o ensino primário, voltei à mestra dos bordados para, como já era hábito, ali passar as férias de verão… 
Ao longo  daqueles quatro períodos de férias dedicados à aprendizagem, tinha feito alguns progressos, e nesse verão a minha mãe foi longe demais ao comprar um lençol que entregou à mestra para eu bordar. Que grande desafio! Bolas bordadas a cheio, e flores a matiz em tons de rosa e cinzento pálido, era o que o desenho propunha. Levei três meses para o  bordar, com todos os recuos que foram acontecendo, pois a mestra que era muito exigente, metia os bicos de uma tesourinha no trabalho e obrigava-me a voltar a bordar sempre que este não se apresentava satisfatório. Quando cheguei ao fim detestava aquele lençol que quase não me cabia no colo, e que ainda hoje o guardo bem no fundo da arca como sendo uma coisa ruim.

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