O Tempo

"O tempo! O passado! Aí algo, uma voz, um canto, um perfume ocasional levanta em minha alma o pano de boca das minhas recordações... Aquilo que fui e nunca mais serei! Aquilo que tive, e não tornarei a ter! Os mortos! Os mortos que me amaram na minha infância. Quando os evoco toda a alma me esfria e eu sinto-me desterrado de corações, sozinho na noite de mim próprio, chorando como um mendigo o silêncio fechado de todas as portas."
........................................................................................................................ Fernando Pessoa

fevereiro 27, 2012

Um novo rumo




Olhando os trabalhos realizados tudo parecia indicar que o que tinha aprendido até ali já seria suficiente para começar a bordar o meu enxoval.
Seguindo a orientação de minha mãe, havia agora que partir para uma outra etapa que me estava reservada: aprender a costurar!
E assim em Outubro de 59, ano em que completo 11 anos, em vez de regressar às aulas como muitas das minhas colegas, entro como aprendiz no atelier de costura da D. Assunção Teixeira, uma modista cujo trabalho era reconhecido, e com quem ainda mantenho uma boa relação de amizade.
Tratava-se de uma sala com pouco mais de meia dúzia de costureiras a quem a mestra já confiava trabalhos que exigiam bons  conhecimentos.
Comecei por apanhar os alfinetes e as linhas que iam caindo no chão. E à medida que ia conhecendo as clientes,  ia entregar a suas casas as obras prontas. Sentia o peso da responsabilidade em as levar no braço enroladas numa toalha branca de linho com uma barra em renda. Saía com a recomendação de não dar trela a ninguém que encontrasse pelo caminho. E eu, ciente da prova de confiança que a mestra me estava a dar, ia num pé e vinha no outro,  trazendo de volta  o ar feliz  de missão cumprida,  e de que a moeda de dez tostões de gorjeta que trazia no bolso era testemunha.

fevereiro 08, 2012

Desafio



Terminadas as aulas  e concluido o ensino primário, voltei à mestra dos bordados para, como já era hábito, ali passar as férias de verão… 
Ao longo  daqueles quatro períodos de férias dedicados à aprendizagem, tinha feito alguns progressos, e nesse verão a minha mãe foi longe demais ao comprar um lençol que entregou à mestra para eu bordar. Que grande desafio! Bolas bordadas a cheio, e flores a matiz em tons de rosa e cinzento pálido, era o que o desenho propunha. Levei três meses para o  bordar, com todos os recuos que foram acontecendo, pois a mestra que era muito exigente, metia os bicos de uma tesourinha no trabalho e obrigava-me a voltar a bordar sempre que este não se apresentava satisfatório. Quando cheguei ao fim detestava aquele lençol que quase não me cabia no colo, e que ainda hoje o guardo bem no fundo da arca como sendo uma coisa ruim.