O Tempo

"O tempo! O passado! Aí algo, uma voz, um canto, um perfume ocasional levanta em minha alma o pano de boca das minhas recordações... Aquilo que fui e nunca mais serei! Aquilo que tive, e não tornarei a ter! Os mortos! Os mortos que me amaram na minha infância. Quando os evoco toda a alma me esfria e eu sinto-me desterrado de corações, sozinho na noite de mim próprio, chorando como um mendigo o silêncio fechado de todas as portas."
........................................................................................................................ Fernando Pessoa

janeiro 22, 2012

Espinhos



- Fica marcado para 20 de Janeiro – disse o meu cardiologista com um ar tão natural como se estivesse a falar do sol radioso que banhava o seu gabinete, e me cobria como um manto para me aquecer do frio gelado que me invadiu. Tinha acabado de saber que para continuar a viver com alguma segurança teria que receber o implante de um CDI.
Que desgosto! Não me sentia preparada para receber tal embate, e regressei a casa lavada em lágrimas.
Mas na data e hora marcada lá estava no elevador rumo ao 5º piso do Hospital de Santa Cruz.
38 anos atrás tinha ali subido ao 2º piso. Nesse dia chorei de alegria quando me puseram nos braços a filha acabada de nascer. Era o despertar de uma vida nova. Hoje, é uma tentativa de fugir da morte -  fui eu pensando até sair do elevador amparada pela fé.
“Pode fazer uma vida normal” é a frase que generosamente ouvimos, mas quando analisamos as entrelinhas vamos percebendo que não seremos mais a mesma pessoa, especialmente, quando estamos habituadas a pensar com o coração.




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