O Tempo

"O tempo! O passado! Aí algo, uma voz, um canto, um perfume ocasional levanta em minha alma o pano de boca das minhas recordações... Aquilo que fui e nunca mais serei! Aquilo que tive, e não tornarei a ter! Os mortos! Os mortos que me amaram na minha infância. Quando os evoco toda a alma me esfria e eu sinto-me desterrado de corações, sozinho na noite de mim próprio, chorando como um mendigo o silêncio fechado de todas as portas."
........................................................................................................................ Fernando Pessoa

janeiro 31, 2012

Injusta decisão



Decorria o ano de 1959.
Estávamos em meados de Maio e a luz do sol já prolongava as tardes, o que permitia que a professora também pudesse prolongar  o tempo de aulas  em época  de exames. Neste caso, aproxi-mava-se o final do ano lectivo, e sem que alguém desse por isso, para além da preparação ao exame da 4ª classe estávamos também a ser preparadas para o exame de admissão ao liceu.
E quando o meu pai foi chamado à escola para tomar conhecimento de que eu estava preparada para ser proposta a exame, fiquei a saber que não estavam reunidas as condições para eu continuar os estudos, já que a partir dali tudo ficaria mais dispendioso.
Se era verdade que o meu pai fazia uma vida muito regrada para garantir aos filhos as condições essenciais para que crescessem com dignidade, também não era menos verdade que na sua decisão tinha pesado o facto do meu irmão não ter querido continuar a estudar, pois por meias palavras, cheguei a ouvir a minha mãe dizer, que não viam com bons olhos que o filho viesse a ser um operário e a filha "doutora". Ao contrário ainda fariam alguns sacrificios.
Era a velha teoria a travar o meu futuro. Mas enquanto que a minha passagem pela mestra dos bordados em tempo de férias me deixava triste, a decisão do meu pai deixou-me verdadeiramente decepcionada pela vida fora. A inocência dos meus 10 anos não me permitiu interpretar as razões de fundo, mas hoje posso garantir que foi o meu primeiro contacto com a discriminação de que a mulher era vítima na sociedade.

janeiro 29, 2012

Hino dos ´Stelanitos



Fui estudante sem traje
Quando a primária deixei
No grupo dos ´Stelanitos
P´ra vida desabrochei

Nossos sonhos de meninos
Ali foram partilhados
Sem saber quais os destinos
Que p´ra nós estavam guardados

Refrão
E o mar com sua magia
Espreitava a nossa janela
Salpicando a poesia
Da sua espuma tão bela
Trago no peito gravado
Murmúrios de maresia
Que docemente embalam
Minha fantasia!

E um dia nos separámos
Com abraços de amizade
E o nosso rumo tomámos
Com a alegria da idade

Quantos anos já vividos
Que farão nossas histórias
É bom estarmos reunidos
Recordando essas memórias

janeiro 27, 2012

Postura



Sentada na ponta do sofá frente à televisão lá   estava a minha neta entre os pais no aconchego do serão em família.
- Tão mal sentada e tão direita... parece que engoliste um garfo - diz a mãe sorrindo.
- Aprendi hoje na aula de dança que para ser uma boa bailarina tenho que manter as costas direitas - respondeu ela. A mãe voltou a esboçar um sorriso um pouco trocista, mas, disfarçadamente ajeitou-se no sofá tentando endireitar as dela. Pelo canto do olho, observava as duas e sorria para dentro. Vejo-as como duas crianças, as minhas crianças...

janeiro 22, 2012

Espinhos



- Fica marcado para 20 de Janeiro – disse o meu cardiologista com um ar tão natural como se estivesse a falar do sol radioso que banhava o seu gabinete, e me cobria como um manto para me aquecer do frio gelado que me invadiu. Tinha acabado de saber que para continuar a viver com alguma segurança teria que receber o implante de um CDI.
Que desgosto! Não me sentia preparada para receber tal embate, e regressei a casa lavada em lágrimas.
Mas na data e hora marcada lá estava no elevador rumo ao 5º piso do Hospital de Santa Cruz.
38 anos atrás tinha ali subido ao 2º piso. Nesse dia chorei de alegria quando me puseram nos braços a filha acabada de nascer. Era o despertar de uma vida nova. Hoje, é uma tentativa de fugir da morte -  fui eu pensando até sair do elevador amparada pela fé.
“Pode fazer uma vida normal” é a frase que generosamente ouvimos, mas quando analisamos as entrelinhas vamos percebendo que não seremos mais a mesma pessoa, especialmente, quando estamos habituadas a pensar com o coração.




janeiro 13, 2012

Ponto Cruz


Aos sete anos comecei a aprender a bordar a ponto cruz. Lembro-me sempre dos dias que a mestra resolvia levar o grupo a passar a tarde na praia, e aproveitando a sombra das embarcações que se encontravam encalhadas, ali ficávamos sentadas bordando perante o olhar admirado de quem passava e me via tão pequena trabalhando ao lado das outras, o que quase sempre dava motivo às mães olharem para as filhas e dizerem: – Vejam este exemplo! - Ouvindo isto, levantava a cabeça do trabalho e quando o meu olhar se cruzava com o delas, baixava a cabeça de vergonha pela a humilhação que as fazia passar, pois o que eu queria mesmo era brincar nas férias, como qualquer criança da minha idade.