O Tempo

"O tempo! O passado! Aí algo, uma voz, um canto, um perfume ocasional levanta em minha alma o pano de boca das minhas recordações... Aquilo que fui e nunca mais serei! Aquilo que tive, e não tornarei a ter! Os mortos! Os mortos que me amaram na minha infância. Quando os evoco toda a alma me esfria e eu sinto-me desterrado de corações, sozinho na noite de mim próprio, chorando como um mendigo o silêncio fechado de todas as portas."
........................................................................................................................ Fernando Pessoa

dezembro 12, 2012

Colo


Para dar colo é preciso pegar no colo?
Nem sempre! Há pessoas que dão colo com as palavras, com o  que elas carregam e transmitem. Elas reconfortam sem presença física, estando, apesar disso, presentes.





 
 

outubro 21, 2012

1ª Jorna



Tinha doze anos quando entrei em casa com a minha primeira jorna.
Na minha geração os aprendizes só começavam a ser retribuídos pelo seu trabalho depois de já serem capazes de executar pequenas e simples tarefas e assim compensarem os mestres do tempo que lhes era dedicado no ensino da profissão. Era uma regra quase comum a  todas as profissões que careciam de um bom período de aprendizagem. Mas nas gerações anteriores, contava o meu pai, os mestres eram pagos para ensinar, o que dificultava a vida dos mais pobres que muitas vezes não podiam pagar para que os filhos aprendessem um ofício.
Naquele sábado quando a mestra efectuou o pagamento às costureiras, também me estendeu a mão com 2 escudos. Era o que eu iria arrecadar semanalmente. Para os meus pais significou que tinha começado a ser útil à mestra, mas para mim o facto teve pouco significado, ainda não dava valor ao dinheiro... afinal eu não passava de uma criança...




outubro 02, 2012

Eu aprendi


"Que a prisão não são as grades, e a liberdade não é a rua; existem homens presos na rua e livres na prisão.
É uma questão de consciência."



 

agosto 28, 2012

Era assim ...


Há dias assisti à apresentação do livro intitulado "DEIXEM  FALAR  AS  PEDRAS" da autoria do jovem escritor David Machado.
Quem como eu passou pelo Estado Novo bastou olhar a capa do livro composta por notas rasuradas, para relembrar a ausência de liberdade de expressão em que assentava a nossa conduta.
Aterrorizava-nos a ideia de numa madrugada qualquer soarem  na porta as pancadas fortes de quem vinha mandatado para dar ordem de prisão.
E porquê?
Muitas vezes alguém que  apenas tinha lamentado as dificuldades no sustento da família.
O medo  pairava em todas as casas e as  crianças  cresciam absorvendo esse sentimento. Quando algum de nós pronunciava qualquer frase, com ou sem intenção de criticar o regime, havia sempre uma voz mais prudente que dizia: "Vamos ficar por aqui porque as paredes também têm ouvidos".
Até o nosso melhor vizinho podia ser um delator...


Que os jovens escritores acreditem nas nossas narrações e passem o testemunho,  é o que todos devemos desejar, para que as novas gerações empenhadas na construção do futuro, tenham sempre presentes as duras experiências dum amargo passado.

julho 07, 2012

Jardim secreto



Há dentro de todos nós essa necessidade de ter em algum lugar nosso jardim secreto, não onde vamos confinar nossos segredos, mas onde podemos ter um encontro real e exclusivo conosco.

Umas pessoas sentem mais essa necessidade que outras, mas estar consigo de vez em quando, interiorizar-se, colocar ordem nos pensamentos ou simplesmente abandonar-se, é vital ao equilíbrio de todos nós.


Nada impede que um grande e lindo jardim seja construído juntos e que de mãos dadas se passeie por ele, com o peito cheio de felicidade e a cabeça cheia de sonhos... mas ainda assim, o jardim secreto de cada um deve ser mantido como lugar único e que vai, no fim das contas, enriquecer as relações.



junho 14, 2012

Eu aprendi



"Que não devemos ter medo dos confrontos... até os planetas se chocam e do caos nascem as estrelas..."
                                                                                                      







junho 08, 2012

A Mocidade que passa



Primeiro de Agosto nas décadas 50/60.
A vila acordava sorridente para receber quem acabava de chegar para ali partilhar as suas tão desejadas férias!  Contava com gente que não conhecia e com outros de quem já tinha saudades! Gente dedicada que voltava à mesma casa, procurando a mesma família, lembrando  andorinhas em cada primavera.
Ao final da tarde rufavam os tambores e soavam as cornetas. Corria-se para ver passar a Mocidade Portuguesa, que entoando o hino, anunciava a sua chegada ao castelo que, generosamente, lhes oferecia guarida para que estendessem as suas tendas.  Um antigo elemento da Mocidade Portuguesa recorda a sua passagem pela organização:
" Naquele tempo, lá íamos cantando e rindo, em orgulhosa ignorância, fardados com uma camisa verde com um dístico colado ao bolso esquerdo. As calças (ou os calções) eram de cor bege ou acastanhadas (marrom) e na fivela do cinto desenhava-se um S que talvez significasse Salazar...era a Mocidade!
A
Mocidade Portuguesa era assim uma organização juvenil que, com bases organizativas na juventude hitleriana, servia o regime salazarista, o Estado Novo, fomentando o culto do chefe e o espírito militar..."




abril 21, 2012

Do muro ao mar



Ao entrar no Facebook a minha atenção ficou presa a esta foto enquanto as imagens se atropelavam nas recordações que me vinham à memória.
Uma ruazita muito estreita conhecida pela Rua da Barroca, onde os poucos carros que existiam na vila quase não conseguiam passar. Muito pouco por lá  acontecia, o que para mim era como um prolongamento do quintal da minha avó. Muitas vezes sózinha, ali corri, joguei à macaca e saltei à corda, acabando sempre, esquecendo tudo à minha volta, sentada no muro dos vizinhos, rendida pela beleza da paisagem que se estendia a meus pés, que eu desde muito cedo aprendi a saborear – aquela vasta baía azul rematada pela faixa de areia branca e fina orlada de espuma como a renda de um lençol. Ainda hoje gosto de lá passar para me encontrar com pedaços da minha infancia que por ali deixei.

março 12, 2012

Oração



Sentada na minha cama minha avó juntou-me as mãos e foi dizendo - “Anjo da Guarda minha companhia guardai minha alma de noite e de dia”.
- Esta é a oração que todos os meninos devem dizer antes de adormecer -  disse-me olhando-me nos olhos. Estava dado mais um passo depois do baptismo, mais um dever cumprido como boa cristã - ensinar os netos a rezar.
Numa parede do quarto havia um pequeno nicho onde ela tinha colocado um quadro com a imagem de Nossa Senhora da Conceição. Os meus olhos mergulhavam naquele azul celeste de onde sobressaía o manto azul escuro de Nossa Senhora rodeada pelos anjinhos com imaculadas asas brancas. O quadro parecia ganhar vida quando a avó apagava a luz . Os pequenos pavios acesos sobre bases de cortiça que saiam de pequenas taças com o azeite que os alimentava, davam ao simples nicho a dignidade de um altar, que no silêncio da noite, espalhava pelo quarto uma sensação de paz e de doce 
harmonia onde a inocência do sono se aconchegava.





março 04, 2012

Eu aprendi


"Que a melhor sala de aula do mundo
está aos pés de uma pessoa mais velha".
William Shakespeare


fevereiro 27, 2012

Um novo rumo




Olhando os trabalhos realizados tudo parecia indicar que o que tinha aprendido até ali já seria suficiente para começar a bordar o meu enxoval.
Seguindo a orientação de minha mãe, havia agora que partir para uma outra etapa que me estava reservada: aprender a costurar!
E assim em Outubro de 59, ano em que completo 11 anos, em vez de regressar às aulas como muitas das minhas colegas, entro como aprendiz no atelier de costura da D. Assunção Teixeira, uma modista cujo trabalho era reconhecido, e com quem ainda mantenho uma boa relação de amizade.
Tratava-se de uma sala com pouco mais de meia dúzia de costureiras a quem a mestra já confiava trabalhos que exigiam bons  conhecimentos.
Comecei por apanhar os alfinetes e as linhas que iam caindo no chão. E à medida que ia conhecendo as clientes,  ia entregar a suas casas as obras prontas. Sentia o peso da responsabilidade em as levar no braço enroladas numa toalha branca de linho com uma barra em renda. Saía com a recomendação de não dar trela a ninguém que encontrasse pelo caminho. E eu, ciente da prova de confiança que a mestra me estava a dar, ia num pé e vinha no outro,  trazendo de volta  o ar feliz  de missão cumprida,  e de que a moeda de dez tostões de gorjeta que trazia no bolso era testemunha.

fevereiro 08, 2012

Desafio



Terminadas as aulas  e concluido o ensino primário, voltei à mestra dos bordados para, como já era hábito, ali passar as férias de verão… 
Ao longo  daqueles quatro períodos de férias dedicados à aprendizagem, tinha feito alguns progressos, e nesse verão a minha mãe foi longe demais ao comprar um lençol que entregou à mestra para eu bordar. Que grande desafio! Bolas bordadas a cheio, e flores a matiz em tons de rosa e cinzento pálido, era o que o desenho propunha. Levei três meses para o  bordar, com todos os recuos que foram acontecendo, pois a mestra que era muito exigente, metia os bicos de uma tesourinha no trabalho e obrigava-me a voltar a bordar sempre que este não se apresentava satisfatório. Quando cheguei ao fim detestava aquele lençol que quase não me cabia no colo, e que ainda hoje o guardo bem no fundo da arca como sendo uma coisa ruim.

janeiro 31, 2012

Injusta decisão



Decorria o ano de 1959.
Estávamos em meados de Maio e a luz do sol já prolongava as tardes, o que permitia que a professora também pudesse prolongar  o tempo de aulas  em época  de exames. Neste caso, aproxi-mava-se o final do ano lectivo, e sem que alguém desse por isso, para além da preparação ao exame da 4ª classe estávamos também a ser preparadas para o exame de admissão ao liceu.
E quando o meu pai foi chamado à escola para tomar conhecimento de que eu estava preparada para ser proposta a exame, fiquei a saber que não estavam reunidas as condições para eu continuar os estudos, já que a partir dali tudo ficaria mais dispendioso.
Se era verdade que o meu pai fazia uma vida muito regrada para garantir aos filhos as condições essenciais para que crescessem com dignidade, também não era menos verdade que na sua decisão tinha pesado o facto do meu irmão não ter querido continuar a estudar, pois por meias palavras, cheguei a ouvir a minha mãe dizer, que não viam com bons olhos que o filho viesse a ser um operário e a filha "doutora". Ao contrário ainda fariam alguns sacrificios.
Era a velha teoria a travar o meu futuro. Mas enquanto que a minha passagem pela mestra dos bordados em tempo de férias me deixava triste, a decisão do meu pai deixou-me verdadeiramente decepcionada pela vida fora. A inocência dos meus 10 anos não me permitiu interpretar as razões de fundo, mas hoje posso garantir que foi o meu primeiro contacto com a discriminação de que a mulher era vítima na sociedade.

janeiro 29, 2012

Hino dos ´Stelanitos



Fui estudante sem traje
Quando a primária deixei
No grupo dos ´Stelanitos
P´ra vida desabrochei

Nossos sonhos de meninos
Ali foram partilhados
Sem saber quais os destinos
Que p´ra nós estavam guardados

Refrão
E o mar com sua magia
Espreitava a nossa janela
Salpicando a poesia
Da sua espuma tão bela
Trago no peito gravado
Murmúrios de maresia
Que docemente embalam
Minha fantasia!

E um dia nos separámos
Com abraços de amizade
E o nosso rumo tomámos
Com a alegria da idade

Quantos anos já vividos
Que farão nossas histórias
É bom estarmos reunidos
Recordando essas memórias

janeiro 27, 2012

Postura



Sentada na ponta do sofá frente à televisão lá   estava a minha neta entre os pais no aconchego do serão em família.
- Tão mal sentada e tão direita... parece que engoliste um garfo - diz a mãe sorrindo.
- Aprendi hoje na aula de dança que para ser uma boa bailarina tenho que manter as costas direitas - respondeu ela. A mãe voltou a esboçar um sorriso um pouco trocista, mas, disfarçadamente ajeitou-se no sofá tentando endireitar as dela. Pelo canto do olho, observava as duas e sorria para dentro. Vejo-as como duas crianças, as minhas crianças...

janeiro 22, 2012

Espinhos



- Fica marcado para 20 de Janeiro – disse o meu cardiologista com um ar tão natural como se estivesse a falar do sol radioso que banhava o seu gabinete, e me cobria como um manto para me aquecer do frio gelado que me invadiu. Tinha acabado de saber que para continuar a viver com alguma segurança teria que receber o implante de um CDI.
Que desgosto! Não me sentia preparada para receber tal embate, e regressei a casa lavada em lágrimas.
Mas na data e hora marcada lá estava no elevador rumo ao 5º piso do Hospital de Santa Cruz.
38 anos atrás tinha ali subido ao 2º piso. Nesse dia chorei de alegria quando me puseram nos braços a filha acabada de nascer. Era o despertar de uma vida nova. Hoje, é uma tentativa de fugir da morte -  fui eu pensando até sair do elevador amparada pela fé.
“Pode fazer uma vida normal” é a frase que generosamente ouvimos, mas quando analisamos as entrelinhas vamos percebendo que não seremos mais a mesma pessoa, especialmente, quando estamos habituadas a pensar com o coração.




janeiro 13, 2012

Ponto Cruz


Aos sete anos comecei a aprender a bordar a ponto cruz. Lembro-me sempre dos dias que a mestra resolvia levar o grupo a passar a tarde na praia, e aproveitando a sombra das embarcações que se encontravam encalhadas, ali ficávamos sentadas bordando perante o olhar admirado de quem passava e me via tão pequena trabalhando ao lado das outras, o que quase sempre dava motivo às mães olharem para as filhas e dizerem: – Vejam este exemplo! - Ouvindo isto, levantava a cabeça do trabalho e quando o meu olhar se cruzava com o delas, baixava a cabeça de vergonha pela a humilhação que as fazia passar, pois o que eu queria mesmo era brincar nas férias, como qualquer criança da minha idade.