O Tempo

"O tempo! O passado! Aí algo, uma voz, um canto, um perfume ocasional levanta em minha alma o pano de boca das minhas recordações... Aquilo que fui e nunca mais serei! Aquilo que tive, e não tornarei a ter! Os mortos! Os mortos que me amaram na minha infância. Quando os evoco toda a alma me esfria e eu sinto-me desterrado de corações, sozinho na noite de mim próprio, chorando como um mendigo o silêncio fechado de todas as portas."
........................................................................................................................ Fernando Pessoa

agosto 18, 2011

Bata e sacola


7 de Outubro de 1955
- O tempo voa – disse a minha avó quando me viu de bata branca pronta para ir para a escola oficial. Para mim o tempo tardava, já havia 2 dois anos que o meu irmão andava na escola, e eu pobre de mim, ao pé dele sentia-me ninguém...
Segurando uma pequena sacola de riscas feita do que sobrou do tecido de lona que o meu pai guardara quando reparou na sua oficina uma velha cadeira de praia, lá segui pela mão da minha mãe até à porta da escola, onde já se encontravam outras alunas com quem viria a partilhar a minha amizade. A professora, também de bata branca, que aguardava a nossa chegada, começou por nos atribuir o lugar de acordo com a nossa altura. As mais altas e sem dificuldades visuais nas carteiras do fundo, as outras nas da frente. Como as minhas pernas ainda não tinham começado a esticar, fiquei pelo grupo das mais baixinhas, e assim me vi sentada na segunda carteira da 1ª fila, lugar que conservei até ao fim.
Era uma aluna aplicada. Mantinha os cadernos limpos e fazia os trabalhos de casa. Mas lá veio o dia que eu também senti o calor escaldante na palma da minha mão depois de uma boa meia dúzia de reguadas. Não sabia o troço da linha dos caminhos-de-ferro “Santa Combadão, Tondela e Viseu”. Confesso que hoje é a única linha de que ainda me lembro..., a humilhação recebida encarregou-se de manter a liçao  viva na minha memória !


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