O Tempo

"O tempo! O passado! Aí algo, uma voz, um canto, um perfume ocasional levanta em minha alma o pano de boca das minhas recordações... Aquilo que fui e nunca mais serei! Aquilo que tive, e não tornarei a ter! Os mortos! Os mortos que me amaram na minha infância. Quando os evoco toda a alma me esfria e eu sinto-me desterrado de corações, sozinho na noite de mim próprio, chorando como um mendigo o silêncio fechado de todas as portas."
........................................................................................................................ Fernando Pessoa

agosto 23, 2011

A praia onde não brinquei



A baía, caracterizada pelas suas águas serenas e sem correntes, era optima para as crianças, o que fazia da sua praia uma das mais procuradas no Alentejo. A vila saía da sua monotonia e abria-se ao turismo durante os três meses de verão.
Mas como quase sempre acontece às pessoas que vivem junto a certos benefícios que a natureza lhes oferece, a sensação que recebem no dia a dia torna-se tão rotineira que quase acabam por perder a capacidade de os apreciar. E disso a minha mãe não era excepção. Raramente me levava à praia, ao invés de tantas famílias que faziam alguns sacrifícios para vir de bem longe oferecer aos filhos uns dias de praia, crentes que seria muito bom para a sua saúde.
Lembro-me da minha tristeza quando debruçada da varanda ficava seguindo de longe as crianças da minha idade brincando junto à maré.

agosto 21, 2011

Ricos pobres, pobres ricos




A falta de preparação de muitos pais levavam estes a delegar nos professores a transmissão de valores que iriam complementar a nossa personalidade.
A noção de humildade, de orgulho e de vaidade, da mentira, da inveja e da preguiça e outros, eram um exemplo bem aproveitado através de textos muito bem escolhidos, alguns deles  em forma de fábula para melhor prender a nossa atenção.
Também a imagem dos pobres e dos mendigos era sempre realçada como figuras nobres da sociedade, enquanto que os ricos eram apontados pela sua avareza. Ser pobre era quase  interpretado como sendo uma dádiva do Céu.
E assim os alunos mais necessitados não se sentiam   humilhados por receberem o benefício de uma refeição na cantina, ou na distribuição de algum material escolar que não pudesse ser suportado pelos pais. E pouco a pouco, íamos crescendo  ao lado uns dos outros sem quase nos apercebermos das diferenças profundas e que eram disfarçadas pelo  uso obrigatório de uma  bata da mesma cor, escondendo as roupas remendadas de uns, ao lado das boas roupas dos outros.

agosto 20, 2011

O Patriotismo


A sala era ampla e banhada pela luz do sol que entrava pelas várias janelas. O chão de sobrado muito bem esfregado, conferia-lhe um ar de asseio.
Por cima do quadro, podíamos ver ao centro Jesus na cruz, ladeado pelo Presidente da República,   o General Óscar Carmona, e  o Presidente do Conselho,  Dr. Oliveira Salazar.
E assim, ali de pé e de olhos postos naquelas figuras, aprendíamos a rezar e a entoar o Hino Nacional, que iria fazer despertar em cada um de nós um novo sentimento: " O Patriotismo".


agosto 18, 2011

Bata e sacola


7 de Outubro de 1955
- O tempo voa – disse a minha avó quando me viu de bata branca pronta para ir para a escola oficial. Para mim o tempo tardava, já havia 2 dois anos que o meu irmão andava na escola, e eu pobre de mim, ao pé dele sentia-me ninguém...
Segurando uma pequena sacola de riscas feita do que sobrou do tecido de lona que o meu pai guardara quando reparou na sua oficina uma velha cadeira de praia, lá segui pela mão da minha mãe até à porta da escola, onde já se encontravam outras alunas com quem viria a partilhar a minha amizade. A professora, também de bata branca, que aguardava a nossa chegada, começou por nos atribuir o lugar de acordo com a nossa altura. As mais altas e sem dificuldades visuais nas carteiras do fundo, as outras nas da frente. Como as minhas pernas ainda não tinham começado a esticar, fiquei pelo grupo das mais baixinhas, e assim me vi sentada na segunda carteira da 1ª fila, lugar que conservei até ao fim.
Era uma aluna aplicada. Mantinha os cadernos limpos e fazia os trabalhos de casa. Mas lá veio o dia que eu também senti o calor escaldante na palma da minha mão depois de uma boa meia dúzia de reguadas. Não sabia o troço da linha dos caminhos-de-ferro “Santa Combadão, Tondela e Viseu”. Confesso que hoje é a única linha de que ainda me lembro..., a humilhação recebida encarregou-se de manter a liçao  viva na minha memória !


agosto 11, 2011

Primeiras letras



Tinha 5 anos quando tive o primeiro contacto com o mundo do ensino: a "escola das Garcias" . Uma sala ampla, onde os rapazes ficavam separados das raparigas por um pequeno corredor a meio que nos conduzia à secretária da professora. De frente uns para os outros, ali passávamos os dias sentados numa cadeirinha que levávamos de casa.
 No colo uma pequena ardósia encaixilhada em madeira, onde aprendiamos a escrever  as 5 letrinhas que nos iriam abrir  portas a um mundo novo.  Era a pré-escola de hoje, em que o "Magalhães "  era a ardósia  e  o  "teclado" o giz. 
Feliz geração a minha, que lutou e sobreviveu a tão grande mudança!



agosto 05, 2011

O ensaio



Ao serão, em casa dos meus avós havia um espaço de ensaio de uma banda jazz de nome "Oriental".  Eu acabava por adormecer embalada pelos temas românticos que animavam os salões das sociedades recreativas nos anos 50, e enquanto dormia serenamente, as notas foram-se colando uma a uma à minha sensibilidade,  do que resultou  esta minha grande paixão pela música.
Guardo com carinho o clarinete que o meu pai tocava como um verdadeiro mestre.