O Tempo

"O tempo! O passado! Aí algo, uma voz, um canto, um perfume ocasional levanta em minha alma o pano de boca das minhas recordações... Aquilo que fui e nunca mais serei! Aquilo que tive, e não tornarei a ter! Os mortos! Os mortos que me amaram na minha infância. Quando os evoco toda a alma me esfria e eu sinto-me desterrado de corações, sozinho na noite de mim próprio, chorando como um mendigo o silêncio fechado de todas as portas."
........................................................................................................................ Fernando Pessoa

junho 13, 2011

A magia do cinema



 - Quem se lembra da avó Sílvia ? - Perguntava a Paulinha com um sorriso ternurento.
Como poderia eu  esquecer-me daquela avó tão simpática que, nos intervalos dos filmes, nos matava a sede depois de um cartucho de tremoços?
Raro também, era o que não levava no bolso alguns tostões para comprar goluseimas à avó Sílvia. 
Nessa altura já tinha completado 6 anos, e passei a ir ao cinema pela mão do meu avô paterno.
Depois de uma paragem junto à alcofa da “dentinho de ouro” ou da tia Noémia, onde nos abasteciamos de pevides ou tremoços, lá passávamos a "fronteira" sob o olhar desconfiado do porteiro, que punha sempre em dúvida a minha idade.
E porque era uma menina, tomávamos lugar na plateia, porque se fosse um rapaz, não tenho dúvida que iria sentar-me nos bancos corridos de lotação ao quadrado, onde entre muita risada e alegria pópria da idade, reinava a lei do aperto e empurrão para que ninguém ficasse em pé.
Regressávamos a casa muito felizes, e nos dias que se seguiam sentia-me bem na pele dos heróis do filme.
Para trás, tínhamos deixado a sala atapetada de cascas de pevides e amendoins, mas com menos uma ou duas pulguitas que, sorrateiramente, se tinham aninhado na bainha da minha saia, ou na dobra da meia. Todos sabiamos que corriamos esse risco, mas  isso não nos impedia de lá voltarmos para disfrutar a magia do grande ecran.
Tempos magros mas felizes!




Sem comentários: