O Tempo

"O tempo! O passado! Aí algo, uma voz, um canto, um perfume ocasional levanta em minha alma o pano de boca das minhas recordações... Aquilo que fui e nunca mais serei! Aquilo que tive, e não tornarei a ter! Os mortos! Os mortos que me amaram na minha infância. Quando os evoco toda a alma me esfria e eu sinto-me desterrado de corações, sozinho na noite de mim próprio, chorando como um mendigo o silêncio fechado de todas as portas."
........................................................................................................................ Fernando Pessoa

junho 09, 2011

Passeio à Baixa Pombalina



Ontem desci à Baixa Pombalina, onde a moda se anuncia cobrindo o corpo esguio dos manequins, que por detrás dos vidros das montras, deitam o seu olhar fixo sobre a pobreza que por ali abunda em jeito de entretenimento.
É o homem-estátua pintado de bronze; é o cão que segura no cestinho das esmolas enquanto o menino toca; é a ceguinha que canta; é o argentino que arrasta o tango no seu acordeon...
Um sem fim de ingénuas manifestações artísticas, que por uma moeda, vão acrescentando história à história daquela rua com quase dois séculos, rematada pelo Arco do Triunfo.
Já de regresso a casa, cruzei-me com uma menina que pedia esmola, à qual dedico este soneto:



Hoje fixei o meu olhar numa criança
Que a mão estendia na minha direcção
Pedindo esmola p´ra comprar o pão
Num olhar quase vazio de esperança



E eu respondi com um sorriso
- Vás dizer-me qual é a tua idade
-Tenho sete ! - disse com vivacidade
- Ajude-me senhora, que eu tanto preciso!

E aquela tão frágil figurinha

Escondida sob o casaco desbotado
Esboçou um sorriso de leve esperança



Porque a minha atenção ela já tinha
E no peito eu trouxe bem gravado
O humilde e meigo olhar dessa criança.






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