O Tempo

"O tempo! O passado! Aí algo, uma voz, um canto, um perfume ocasional levanta em minha alma o pano de boca das minhas recordações... Aquilo que fui e nunca mais serei! Aquilo que tive, e não tornarei a ter! Os mortos! Os mortos que me amaram na minha infância. Quando os evoco toda a alma me esfria e eu sinto-me desterrado de corações, sozinho na noite de mim próprio, chorando como um mendigo o silêncio fechado de todas as portas."
........................................................................................................................ Fernando Pessoa

junho 23, 2011

O meu herói


Há muitos anos (falar assim é um direito que já adquiri...) havia no quintal da minha avó um cágado de carapaça castanha muito escura e baça do pó da terra dos canteiros onde ele passava muito tempo, quem sabe se para se esconder de mim...
A nossa relação era um verdadeiro jogo de paciências. Eu sentia uma enorme vontade de segurar nas suas patinhas e passar-lhe a mão pela cabeça como costumava fazer ao cão pachorrento, a quem o meu tio deu o nome de Fiel.
Também o meu amigo cágado, sem nome, era muito pachorrento no seu andar mas muito rápido na sua defesa, e ao escapar-se hábilmente entre os meus dedos refugiava-se na sua carapaça impenetrável como se de uma fortaleza se tratasse. Durante alguns momentos eu ficava de sentinela, e quando ele muito lentamente e a medo começava a estender as patinhas, eu voltava a tentar agarrá-lo mas sem sucesso.
Um dia, fora do meu olhar, o meu amigo dirigia-se a um canteiro e não dava mais vista. Nos primeiros dias procurava-o em vão. Sentia a sua falta, pois ainda hoje acredito que na verdade comunicávamos em silêncio.
Enterrava-se entre as flores onde passava o Inverno para acordar na Primavera seguinte. E nesse acordar o nosso jogo recomeçava passo por passo.
Ele saía sempre vencedor. Era o meu herói !


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