O Tempo

"O tempo! O passado! Aí algo, uma voz, um canto, um perfume ocasional levanta em minha alma o pano de boca das minhas recordações... Aquilo que fui e nunca mais serei! Aquilo que tive, e não tornarei a ter! Os mortos! Os mortos que me amaram na minha infância. Quando os evoco toda a alma me esfria e eu sinto-me desterrado de corações, sozinho na noite de mim próprio, chorando como um mendigo o silêncio fechado de todas as portas."
........................................................................................................................ Fernando Pessoa

junho 08, 2011

O meu mar


Um quintal grande cheio de flores, que me dava acesso a uma varanda em madeira pintada de azul forte debruçada sobre a praia, foram palco da minha infância, tendo o mar como pano de fundo.


Abraçada à minha boneca de papelão desbotado, ali ficava  a observar aquela baía imensa salpicada de pequenas embarcações de pesca, que se movimentavam num lento arrastar das pás dos remos. Era o meu mar, que o céu vestia todos os dias de cor diferente.


E ali aprendi a admirá-lo pela sua grandeza, a amá-lo pela sua beleza, e a respeitá-lo pela sua bravura.


Adormecia e despertava no eco do rebentar das ondas que se estendiam ao longo da praia. Conhecia bem o seu murmúrio nas noites de maresia, e o assobiar do vento sul anunciando a aproximação de temporal.

Era o fiel companheiro dos meus silêncios...
Teria ele alguma vez reparado em mim?


Esta reflexão leva-me a um dos belos poemas de Sophia de Mello Breyner:


Mar sonoro, mar sem fundo mar sem fim.
A tua beleza aumenta quando estamos sós.
E tão fundo intimamente a tua voz
Segue o mais secreto bailar do meu sonho
Que momentos há em que eu suponho
Seres um milagre criado só para mim.





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