O Tempo

"O tempo! O passado! Aí algo, uma voz, um canto, um perfume ocasional levanta em minha alma o pano de boca das minhas recordações... Aquilo que fui e nunca mais serei! Aquilo que tive, e não tornarei a ter! Os mortos! Os mortos que me amaram na minha infância. Quando os evoco toda a alma me esfria e eu sinto-me desterrado de corações, sozinho na noite de mim próprio, chorando como um mendigo o silêncio fechado de todas as portas."
........................................................................................................................ Fernando Pessoa

junho 27, 2011

Uma velha amiga


A tarde de ontem foi particularmente agradável pois tive o previlégio de estar presente no almoço dos antigos alunos dos irmãos Viana da Silva. Para além do prazer de me encontrar com colegas que há muito não via, fiquei ao lado de uma colega e amiga de muitos anos, a Conceição,  de quem tenho recebido sempre provas de verdadeira amizade.
Concordo quando Júlio Machado Vaz escreve:     "as amizades verdadeiras sobrevivem ao ritmo  alucinante das nossas vidas,   a telemóveis silenciosos,  a promessas de encontros não cumpridas, porque não albergam a dúvida que se enferruja…."
É o caso, pois raramente nos vemos ou telefonamos embora estando tão perto uma da outra... o que pode parecer estranho em relaçao  à forte amizade que nos une.
Falámos do presente e recordámos o passado com muita ternura e alguma saudade da força da nossa juventude.
E com um brilhosinho nos olhos, terminámos a tarde com um afectuoso abraço e a promessa de um  " até sempre " !

junho 26, 2011

Era uma vez


O calendário de parede que tenho na minha  frente indica que hoje é  Sexta-feira  17 de Setembro.  Decorre o ano de 2010. Gosto dos anos pares para desenvolver qualquer projecto  ou concretizar um velho sonho.
A tarde está amena e o movimento dos raios de sol filtrados pelas cortinas da janela enchem a sala de uma luz ténue e amarelada anunciando a chegada do Outono.  
Sentada ao computador começo a delinear um trabalho com base na história da minha vida. São quase 62 anos  de vivências  que  dão ao meu rosto o desgaste natural  marcado por  recordações boas e más, por ilusões e desilusões, por fracassos e  sucessos, por desgostos e alegrias.
Mas algo se mantém intacto: A capacidade de luta por tudo aquilo em que acredito. Pessoas há que com a cessação da sua actividade profissional, aceitam uma inactividade total como facto natural que os conduz ao final das suas vidas.
A isso eu digo NÃO!

junho 23, 2011

O meu herói


Há muitos anos (falar assim é um direito que já adquiri...) havia no quintal da minha avó um cágado de carapaça castanha muito escura e baça do pó da terra dos canteiros onde ele passava muito tempo, quem sabe se para se esconder de mim...
A nossa relação era um verdadeiro jogo de paciências. Eu sentia uma enorme vontade de segurar nas suas patinhas e passar-lhe a mão pela cabeça como costumava fazer ao cão pachorrento, a quem o meu tio deu o nome de Fiel.
Também o meu amigo cágado, sem nome, era muito pachorrento no seu andar mas muito rápido na sua defesa, e ao escapar-se hábilmente entre os meus dedos refugiava-se na sua carapaça impenetrável como se de uma fortaleza se tratasse. Durante alguns momentos eu ficava de sentinela, e quando ele muito lentamente e a medo começava a estender as patinhas, eu voltava a tentar agarrá-lo mas sem sucesso.
Um dia, fora do meu olhar, o meu amigo dirigia-se a um canteiro e não dava mais vista. Nos primeiros dias procurava-o em vão. Sentia a sua falta, pois ainda hoje acredito que na verdade comunicávamos em silêncio.
Enterrava-se entre as flores onde passava o Inverno para acordar na Primavera seguinte. E nesse acordar o nosso jogo recomeçava passo por passo.
Ele saía sempre vencedor. Era o meu herói !


junho 15, 2011

Para as minhas amigas sem rosto



"De repente percebo com encantamento que amigos virtuais não têm idade. Eles têm essa forma bonita de se aconchegar no nosso colo, de se eternizar de maneira indefinida e a gente não sabe adivinhar se são crianças ou experientes da vida.
Há nas suas palavras um perfume de mistério, eles brincam, falam sério e quantas primaveras viveram torna-se tão insignificante que a gente nem pensa mais. Abraçamos a imagem sem ver o rosto, bebemos as palavras sem nos questionar.
O que é a idade? Na net isso não tem a mínima importância. Amigos de vinte, trinta, quarenta... oitenta anos!... Todos tão iguais, todos tão especiais. Amamos o que lemos, o que recebemos, aquilo que se adentra e se apega à nossa alma e não pensamos se os olhos são castanhos ou azuis, se o cabelo é loiro ou preto, curto ou comprido, se a pele é negra, branca ou morena.
Há nessa rede muito mais calor humano, muito mais igualdade, menos preconceitos, mais amor do que em qualquer outra sociedade. Aprendemos a amar as pessoas simplesmente pelo que são e pelas alegrias que trazem ao nosso coração.
Ai!... Que alegria essa evidência divina! Somos elos dourados, somos seres abençoados, pétalas de uma mesma flor, somos lindos versos entrelaçados!..."
                                                                       (Letícia Thompson)

junho 13, 2011

A magia do cinema



 - Quem se lembra da avó Sílvia ? - Perguntava a Paulinha com um sorriso ternurento.
Como poderia eu  esquecer-me daquela avó tão simpática que, nos intervalos dos filmes, nos matava a sede depois de um cartucho de tremoços?
Raro também, era o que não levava no bolso alguns tostões para comprar goluseimas à avó Sílvia. 
Nessa altura já tinha completado 6 anos, e passei a ir ao cinema pela mão do meu avô paterno.
Depois de uma paragem junto à alcofa da “dentinho de ouro” ou da tia Noémia, onde nos abasteciamos de pevides ou tremoços, lá passávamos a "fronteira" sob o olhar desconfiado do porteiro, que punha sempre em dúvida a minha idade.
E porque era uma menina, tomávamos lugar na plateia, porque se fosse um rapaz, não tenho dúvida que iria sentar-me nos bancos corridos de lotação ao quadrado, onde entre muita risada e alegria pópria da idade, reinava a lei do aperto e empurrão para que ninguém ficasse em pé.
Regressávamos a casa muito felizes, e nos dias que se seguiam sentia-me bem na pele dos heróis do filme.
Para trás, tínhamos deixado a sala atapetada de cascas de pevides e amendoins, mas com menos uma ou duas pulguitas que, sorrateiramente, se tinham aninhado na bainha da minha saia, ou na dobra da meia. Todos sabiamos que corriamos esse risco, mas  isso não nos impedia de lá voltarmos para disfrutar a magia do grande ecran.
Tempos magros mas felizes!




junho 10, 2011

Cá vai Lisboa


Lisboa vestiu-se de marchante e anda na rua!
Está radiosa e orgulhosa dos seus bairros e das suas gentes que defendem com alegria e muita garra a alma dos bairros que as viram nascer.
E lá está Santo António a abençoar a festa que é de todos, e até daqueles que nestes dias vêm de longe para ter um saboroso encontro com boa sardinha a pingar no pão (puxando um bom vinho), e ao som dos gemidos de uma guitarra  acompanhando a nossa expressão máxima “ o fado”.



Para a minha neta



Por cima dos telhados molhados pela chuva branda, vejo o Tejo cinzento adormecido no seu leito.
Debruço-me da janela para receber a aragem morna do sul, mas o vento não sopra, e as minhas faces molhadas  não recebem o beijinho teu que o vento me prometeu.




junho 09, 2011

Passeio à Baixa Pombalina



Ontem desci à Baixa Pombalina, onde a moda se anuncia cobrindo o corpo esguio dos manequins, que por detrás dos vidros das montras, deitam o seu olhar fixo sobre a pobreza que por ali abunda em jeito de entretenimento.
É o homem-estátua pintado de bronze; é o cão que segura no cestinho das esmolas enquanto o menino toca; é a ceguinha que canta; é o argentino que arrasta o tango no seu acordeon...
Um sem fim de ingénuas manifestações artísticas, que por uma moeda, vão acrescentando história à história daquela rua com quase dois séculos, rematada pelo Arco do Triunfo.
Já de regresso a casa, cruzei-me com uma menina que pedia esmola, à qual dedico este soneto:



Hoje fixei o meu olhar numa criança
Que a mão estendia na minha direcção
Pedindo esmola p´ra comprar o pão
Num olhar quase vazio de esperança



E eu respondi com um sorriso
- Vás dizer-me qual é a tua idade
-Tenho sete ! - disse com vivacidade
- Ajude-me senhora, que eu tanto preciso!

E aquela tão frágil figurinha

Escondida sob o casaco desbotado
Esboçou um sorriso de leve esperança



Porque a minha atenção ela já tinha
E no peito eu trouxe bem gravado
O humilde e meigo olhar dessa criança.






junho 08, 2011

O meu mar


Um quintal grande cheio de flores, que me dava acesso a uma varanda em madeira pintada de azul forte debruçada sobre a praia, foram palco da minha infância, tendo o mar como pano de fundo.


Abraçada à minha boneca de papelão desbotado, ali ficava  a observar aquela baía imensa salpicada de pequenas embarcações de pesca, que se movimentavam num lento arrastar das pás dos remos. Era o meu mar, que o céu vestia todos os dias de cor diferente.


E ali aprendi a admirá-lo pela sua grandeza, a amá-lo pela sua beleza, e a respeitá-lo pela sua bravura.


Adormecia e despertava no eco do rebentar das ondas que se estendiam ao longo da praia. Conhecia bem o seu murmúrio nas noites de maresia, e o assobiar do vento sul anunciando a aproximação de temporal.

Era o fiel companheiro dos meus silêncios...
Teria ele alguma vez reparado em mim?


Esta reflexão leva-me a um dos belos poemas de Sophia de Mello Breyner:


Mar sonoro, mar sem fundo mar sem fim.
A tua beleza aumenta quando estamos sós.
E tão fundo intimamente a tua voz
Segue o mais secreto bailar do meu sonho
Que momentos há em que eu suponho
Seres um milagre criado só para mim.





junho 07, 2011

As minhas paixões



Os últimos anos da minha vida profissional foram vividos com alguma ansiedade de ver chegar o dia de colocar na minha pasta os objectos pessoais que me observavam dos diversos angulos da minha mesa de trabalho, e que eu guardo com muito carinho pois são testemunho das muitas batalhas que travei, e que como vencida ou vencedora, saí sempre de cabeça erguida.
Esse dia chegou!
E eu despedi-me de tudo e de todos  com um  sorriso triste, direi mesmo, muito amargo. Para trás deixava um mundo maravilhoso onde cresci ao longo de 40 anos de trabalho e de muita dedicação.
 
Mas eu tinha pressa de partir...
O receio de não ter tempo de me encontrar comigo a sós para me espreguiçar na leitura de um poema, na contemplação do mar, ou na magia do som  das notas arrastadas pelas teclas do piano, deixava-me muito inquieta,  como se tudo na minha vida estivesse ainda por fazer…