O Tempo

"O tempo! O passado! Aí algo, uma voz, um canto, um perfume ocasional levanta em minha alma o pano de boca das minhas recordações... Aquilo que fui e nunca mais serei! Aquilo que tive, e não tornarei a ter! Os mortos! Os mortos que me amaram na minha infância. Quando os evoco toda a alma me esfria e eu sinto-me desterrado de corações, sozinho na noite de mim próprio, chorando como um mendigo o silêncio fechado de todas as portas."
........................................................................................................................ Fernando Pessoa

dezembro 31, 2011

Ano Velho



Quebrando o silêncio que a casa abriga, no relógio da sala soa a badalada da meia hora anunciando que são 23.30 .
De olhar triste e negro como esta noite fria e escura de Dezembro, o Ano Velho prepara-se para se retirar, levando consigo a mágoa das desilusões que marcaram a alma daqueles que nele confiaram.
Sentado nas asas do vento, despede-se com tristeza das árvores que ajudou a prender à terra, das gaivotas que viu nascer no rasgo de um rochedo, do cântico das nascentes, da bravura das marés, do brilho das estrelas e da magia do sol que nos aquece.
Um dia  irá chorar de saudade das cores e do perfume da Primavera, do regresso das andorinhas, da alegria do nascer de uma criança, e leva no coração a dor de quem perde alguém que muito ama.
Ao Novo Ano  ele confia as promessas por cumprir, e a esperança do Homem conseguir vencer no tempo os grandes obstáculos, aplacando o ódio, a inveja e o desejo de vingança , semeando   o amor e a paz no mundo inteiro!
E envolto num manto de solidão, se vai abandonando no arrastar  do vento... rumo ao passado.
O tempo esgotou... e lá longe, o céu veste-se de muitas cores,  e as taças se erguem aos céus para receber com alegria o Novo Ano.
Alguém eleva a voz:  - Fora ! Ano Velho!





dezembro 07, 2011

Carta ao Pai Natal



Decorriam os anos 50!
Já frequentava a 1ª classe mas ainda acreditava na visita do Pai Natal.
- Meninos! São horas de ir para a cama !– dizia minha mãe enquanto dobrava as mangas frente a um alguidar de barro onde ia começar a amassar os fritos de Natal.
Aquela noite era especial para todos. Eu e o meu irmão corriamos para colocar o "sapatinho à chaminé".
 Lá dentro, uma pequena cartinha dobrada  onde sobre algumas linhas levemente traçadas, e numa letrinha cuidadosamente desenhada, eram formu-lados os pedidos ao Pai Natal. Lembro-me de olhar a chaminé e de pensar como seria possível que "Ele" conseguisse passar com o saco por aquela abertura tão estreitinha… Mas a avó Virgínia dizia que sim, e o meu receio desaparecia.
Amanhece, e o velho relógio capela acaba de dar as 7 badaladas que habitualmente me despertam para o dia.
Descalça, pé ante pé, e um pouco desconfiada não fosse surpreender o Pai Natal, vou à cozinha procurar os meus presentes. Quase sempre ficava um pouco triste pois raramente encontrava o que tanto tinha desejado. Regressava à cama com os presentes que o "meu Pai Natal" tinha conseguido   comprar,  mas depressa me conformava ao   abrir  um  livro de contos ou saboreando um cadernito de figuras para colorir com a caixinha de meia dúzia de lápis de cor que o acompanhava. Dentro de um par de luvas ou de um par de meias de lã, escondiam-se umas pequenas barritas de chocolate embrulhadas em pratinhas vistosas, que eram o meu orgulho quando na escola folheava o meu livro de leitura.
Os presentes eram muito modestos, mas o ambiente de amor que os rodeava,  dava-lhes um valor sem igual.




setembro 13, 2011

Fada do lar


As minhas férias de verão eram passadas entre raparigas mais velhas que aprendiam a bordar o seu enxoval. Nessa época defendia-se a ideia de que o papel das raparigas era aprender a bordar, a costurar e a cozinhar, para virem a ser boas donas de casa.
No discurso do Dr Oliveira Salazar lido em 1933 na Sede da União Nacional na cidade do Porto, está bem claro o conceito do Estado Novo sobre o papel da mulher na sociedade.
..."O trabalho da mulher fora do lar desagrega este, separa os membros da família, torna-os um pouco estranhos uns aos outros. Desaparece a vida em comum, sofre a obra educativa das crianças, diminui o número destas; e com o mau ou impossível funcionamento da economia doméstica, no arranjo da casa, no preparo da alimentação e do vestuário, verifica-se uma perda importante, raro materialmente compensada pelo salário percebido. De vez em quando perde-se de vista a importância dos factores morais no rendimento do trabalho. O excesso da mecânica que aproveita o braço leva a desinteressar-se da disposição interior. Em todo o caso continua exacto ainda hoje, na maior parte da produção, que a alegria, a boa disposição, a felicidade de viver constituem energias que elevam a qualidade e a quantidade do trabalho produzido. A família é a mais pura fonte dos factores morais da produção.
Assim temos como lógico na vida social e como útil à economia a existência regular da família do trabalhador; temos como fundamental que seja o trabalhador que a sustente; defendemos que o trabalho da mulher casada e geralmente até o da mulher solteira, integrada na família e sem a responsabilidade da mesma, não deve ser fomentado;
nunca houve nenhuma boa dona de casa que não tivesse imenso que fazer."...





agosto 23, 2011

A praia onde não brinquei



A baía, caracterizada pelas suas águas serenas e sem correntes, era optima para as crianças, o que fazia da sua praia uma das mais procuradas no Alentejo. A vila saía da sua monotonia e abria-se ao turismo durante os três meses de verão.
Mas como quase sempre acontece às pessoas que vivem junto a certos benefícios que a natureza lhes oferece, a sensação que recebem no dia a dia torna-se tão rotineira que quase acabam por perder a capacidade de os apreciar. E disso a minha mãe não era excepção. Raramente me levava à praia, ao invés de tantas famílias que faziam alguns sacrifícios para vir de bem longe oferecer aos filhos uns dias de praia, crentes que seria muito bom para a sua saúde.
Lembro-me da minha tristeza quando debruçada da varanda ficava seguindo de longe as crianças da minha idade brincando junto à maré.

agosto 21, 2011

Ricos pobres, pobres ricos




A falta de preparação de muitos pais levavam estes a delegar nos professores a transmissão de valores que iriam complementar a nossa personalidade.
A noção de humildade, de orgulho e de vaidade, da mentira, da inveja e da preguiça e outros, eram um exemplo bem aproveitado através de textos muito bem escolhidos, alguns deles  em forma de fábula para melhor prender a nossa atenção.
Também a imagem dos pobres e dos mendigos era sempre realçada como figuras nobres da sociedade, enquanto que os ricos eram apontados pela sua avareza. Ser pobre era quase  interpretado como sendo uma dádiva do Céu.
E assim os alunos mais necessitados não se sentiam   humilhados por receberem o benefício de uma refeição na cantina, ou na distribuição de algum material escolar que não pudesse ser suportado pelos pais. E pouco a pouco, íamos crescendo  ao lado uns dos outros sem quase nos apercebermos das diferenças profundas e que eram disfarçadas pelo  uso obrigatório de uma  bata da mesma cor, escondendo as roupas remendadas de uns, ao lado das boas roupas dos outros.

agosto 20, 2011

O Patriotismo


A sala era ampla e banhada pela luz do sol que entrava pelas várias janelas. O chão de sobrado muito bem esfregado, conferia-lhe um ar de asseio.
Por cima do quadro, podíamos ver ao centro Jesus na cruz, ladeado pelo Presidente da República,   o General Óscar Carmona, e  o Presidente do Conselho,  Dr. Oliveira Salazar.
E assim, ali de pé e de olhos postos naquelas figuras, aprendíamos a rezar e a entoar o Hino Nacional, que iria fazer despertar em cada um de nós um novo sentimento: " O Patriotismo".


agosto 18, 2011

Bata e sacola


7 de Outubro de 1955
- O tempo voa – disse a minha avó quando me viu de bata branca pronta para ir para a escola oficial. Para mim o tempo tardava, já havia 2 dois anos que o meu irmão andava na escola, e eu pobre de mim, ao pé dele sentia-me ninguém...
Segurando uma pequena sacola de riscas feita do que sobrou do tecido de lona que o meu pai guardara quando reparou na sua oficina uma velha cadeira de praia, lá segui pela mão da minha mãe até à porta da escola, onde já se encontravam outras alunas com quem viria a partilhar a minha amizade. A professora, também de bata branca, que aguardava a nossa chegada, começou por nos atribuir o lugar de acordo com a nossa altura. As mais altas e sem dificuldades visuais nas carteiras do fundo, as outras nas da frente. Como as minhas pernas ainda não tinham começado a esticar, fiquei pelo grupo das mais baixinhas, e assim me vi sentada na segunda carteira da 1ª fila, lugar que conservei até ao fim.
Era uma aluna aplicada. Mantinha os cadernos limpos e fazia os trabalhos de casa. Mas lá veio o dia que eu também senti o calor escaldante na palma da minha mão depois de uma boa meia dúzia de reguadas. Não sabia o troço da linha dos caminhos-de-ferro “Santa Combadão, Tondela e Viseu”. Confesso que hoje é a única linha de que ainda me lembro..., a humilhação recebida encarregou-se de manter a liçao  viva na minha memória !


agosto 11, 2011

Primeiras letras



Tinha 5 anos quando tive o primeiro contacto com o mundo do ensino: a "escola das Garcias" . Uma sala ampla, onde os rapazes ficavam separados das raparigas por um pequeno corredor a meio que nos conduzia à secretária da professora. De frente uns para os outros, ali passávamos os dias sentados numa cadeirinha que levávamos de casa.
 No colo uma pequena ardósia encaixilhada em madeira, onde aprendiamos a escrever  as 5 letrinhas que nos iriam abrir  portas a um mundo novo.  Era a pré-escola de hoje, em que o "Magalhães "  era a ardósia  e  o  "teclado" o giz. 
Feliz geração a minha, que lutou e sobreviveu a tão grande mudança!



agosto 05, 2011

O ensaio



Ao serão, em casa dos meus avós havia um espaço de ensaio de uma banda jazz de nome "Oriental".  Eu acabava por adormecer embalada pelos temas românticos que animavam os salões das sociedades recreativas nos anos 50, e enquanto dormia serenamente, as notas foram-se colando uma a uma à minha sensibilidade,  do que resultou  esta minha grande paixão pela música.
Guardo com carinho o clarinete que o meu pai tocava como um verdadeiro mestre.


julho 27, 2011

Vento do sul


Em dias de mau tempo os pescadores não podiam sair  para a pesca e o meu avô aproveitava para remendar as redes.
Sentada a seu lado, e  sem  que  me  pedisse, ia enchendo as agulhas com o fio de rede para o ajudar, trauteando com ele alegres  cantigas no aconchego da sua companhia, enquanto o vento do sul assobiava  lá fora anunciando um rigoroso dia de inverno.


julho 24, 2011

Infância



Nos meus primeiros anos vivi com os meus pais em casa dos meus avós paternos, local onde nasci. Quando tento lembrar-me de alguns pormenores da minha infância surge-me em primeiro lugar a sua imagem , e pelo conforto que sinto quando os recordo, eu não tenho qualquer dúvida em afirmar que fui uma neta feliz.

julho 15, 2011

Ana

 

Estamos em 1948, aqui encontro a razão do meu gosto pelos anos pares, 3 anos depois da II Guerra Mundial  ter terminado. E muito embora o país não tivesse estado directamente envolvido na guerra, a inflação bateu-lhe à porta devido à carência de bens alimentares, facto que muito afectou as pequenas povoações como Sines, vila onde nasci a 11 de Outubro desse mesmo ano.
A minha mãe gostava que eu tivesse usado o nome de Ana, nome da minha avó materna, mas a regra determinava que o privilégio da escolha do nome  pertencia à madrinha.
Quando na escola aprendi a copiá-lo  ainda não sabia que nunca iria aprender a conviver com ele. Sobreviveu a afeição à minha madrinha por quem eu sempre nutri uma doce ternura, que ela soube estimar  e retribuir.
A filha nasceu! Trocámos olhares e chamei-lhe  Ana ... e ela gostou !

junho 27, 2011

Uma velha amiga


A tarde de ontem foi particularmente agradável pois tive o previlégio de estar presente no almoço dos antigos alunos dos irmãos Viana da Silva. Para além do prazer de me encontrar com colegas que há muito não via, fiquei ao lado de uma colega e amiga de muitos anos, a Conceição,  de quem tenho recebido sempre provas de verdadeira amizade.
Concordo quando Júlio Machado Vaz escreve:     "as amizades verdadeiras sobrevivem ao ritmo  alucinante das nossas vidas,   a telemóveis silenciosos,  a promessas de encontros não cumpridas, porque não albergam a dúvida que se enferruja…."
É o caso, pois raramente nos vemos ou telefonamos embora estando tão perto uma da outra... o que pode parecer estranho em relaçao  à forte amizade que nos une.
Falámos do presente e recordámos o passado com muita ternura e alguma saudade da força da nossa juventude.
E com um brilhosinho nos olhos, terminámos a tarde com um afectuoso abraço e a promessa de um  " até sempre " !

junho 26, 2011

Era uma vez


O calendário de parede que tenho na minha  frente indica que hoje é  Sexta-feira  17 de Setembro.  Decorre o ano de 2010. Gosto dos anos pares para desenvolver qualquer projecto  ou concretizar um velho sonho.
A tarde está amena e o movimento dos raios de sol filtrados pelas cortinas da janela enchem a sala de uma luz ténue e amarelada anunciando a chegada do Outono.  
Sentada ao computador começo a delinear um trabalho com base na história da minha vida. São quase 62 anos  de vivências  que  dão ao meu rosto o desgaste natural  marcado por  recordações boas e más, por ilusões e desilusões, por fracassos e  sucessos, por desgostos e alegrias.
Mas algo se mantém intacto: A capacidade de luta por tudo aquilo em que acredito. Pessoas há que com a cessação da sua actividade profissional, aceitam uma inactividade total como facto natural que os conduz ao final das suas vidas.
A isso eu digo NÃO!

junho 23, 2011

O meu herói


Há muitos anos (falar assim é um direito que já adquiri...) havia no quintal da minha avó um cágado de carapaça castanha muito escura e baça do pó da terra dos canteiros onde ele passava muito tempo, quem sabe se para se esconder de mim...
A nossa relação era um verdadeiro jogo de paciências. Eu sentia uma enorme vontade de segurar nas suas patinhas e passar-lhe a mão pela cabeça como costumava fazer ao cão pachorrento, a quem o meu tio deu o nome de Fiel.
Também o meu amigo cágado, sem nome, era muito pachorrento no seu andar mas muito rápido na sua defesa, e ao escapar-se hábilmente entre os meus dedos refugiava-se na sua carapaça impenetrável como se de uma fortaleza se tratasse. Durante alguns momentos eu ficava de sentinela, e quando ele muito lentamente e a medo começava a estender as patinhas, eu voltava a tentar agarrá-lo mas sem sucesso.
Um dia, fora do meu olhar, o meu amigo dirigia-se a um canteiro e não dava mais vista. Nos primeiros dias procurava-o em vão. Sentia a sua falta, pois ainda hoje acredito que na verdade comunicávamos em silêncio.
Enterrava-se entre as flores onde passava o Inverno para acordar na Primavera seguinte. E nesse acordar o nosso jogo recomeçava passo por passo.
Ele saía sempre vencedor. Era o meu herói !


junho 15, 2011

Para as minhas amigas sem rosto



"De repente percebo com encantamento que amigos virtuais não têm idade. Eles têm essa forma bonita de se aconchegar no nosso colo, de se eternizar de maneira indefinida e a gente não sabe adivinhar se são crianças ou experientes da vida.
Há nas suas palavras um perfume de mistério, eles brincam, falam sério e quantas primaveras viveram torna-se tão insignificante que a gente nem pensa mais. Abraçamos a imagem sem ver o rosto, bebemos as palavras sem nos questionar.
O que é a idade? Na net isso não tem a mínima importância. Amigos de vinte, trinta, quarenta... oitenta anos!... Todos tão iguais, todos tão especiais. Amamos o que lemos, o que recebemos, aquilo que se adentra e se apega à nossa alma e não pensamos se os olhos são castanhos ou azuis, se o cabelo é loiro ou preto, curto ou comprido, se a pele é negra, branca ou morena.
Há nessa rede muito mais calor humano, muito mais igualdade, menos preconceitos, mais amor do que em qualquer outra sociedade. Aprendemos a amar as pessoas simplesmente pelo que são e pelas alegrias que trazem ao nosso coração.
Ai!... Que alegria essa evidência divina! Somos elos dourados, somos seres abençoados, pétalas de uma mesma flor, somos lindos versos entrelaçados!..."
                                                                       (Letícia Thompson)

junho 13, 2011

A magia do cinema



 - Quem se lembra da avó Sílvia ? - Perguntava a Paulinha com um sorriso ternurento.
Como poderia eu  esquecer-me daquela avó tão simpática que, nos intervalos dos filmes, nos matava a sede depois de um cartucho de tremoços?
Raro também, era o que não levava no bolso alguns tostões para comprar goluseimas à avó Sílvia. 
Nessa altura já tinha completado 6 anos, e passei a ir ao cinema pela mão do meu avô paterno.
Depois de uma paragem junto à alcofa da “dentinho de ouro” ou da tia Noémia, onde nos abasteciamos de pevides ou tremoços, lá passávamos a "fronteira" sob o olhar desconfiado do porteiro, que punha sempre em dúvida a minha idade.
E porque era uma menina, tomávamos lugar na plateia, porque se fosse um rapaz, não tenho dúvida que iria sentar-me nos bancos corridos de lotação ao quadrado, onde entre muita risada e alegria pópria da idade, reinava a lei do aperto e empurrão para que ninguém ficasse em pé.
Regressávamos a casa muito felizes, e nos dias que se seguiam sentia-me bem na pele dos heróis do filme.
Para trás, tínhamos deixado a sala atapetada de cascas de pevides e amendoins, mas com menos uma ou duas pulguitas que, sorrateiramente, se tinham aninhado na bainha da minha saia, ou na dobra da meia. Todos sabiamos que corriamos esse risco, mas  isso não nos impedia de lá voltarmos para disfrutar a magia do grande ecran.
Tempos magros mas felizes!




junho 10, 2011

Cá vai Lisboa


Lisboa vestiu-se de marchante e anda na rua!
Está radiosa e orgulhosa dos seus bairros e das suas gentes que defendem com alegria e muita garra a alma dos bairros que as viram nascer.
E lá está Santo António a abençoar a festa que é de todos, e até daqueles que nestes dias vêm de longe para ter um saboroso encontro com boa sardinha a pingar no pão (puxando um bom vinho), e ao som dos gemidos de uma guitarra  acompanhando a nossa expressão máxima “ o fado”.



Para a minha neta



Por cima dos telhados molhados pela chuva branda, vejo o Tejo cinzento adormecido no seu leito.
Debruço-me da janela para receber a aragem morna do sul, mas o vento não sopra, e as minhas faces molhadas  não recebem o beijinho teu que o vento me prometeu.




junho 09, 2011

Passeio à Baixa Pombalina



Ontem desci à Baixa Pombalina, onde a moda se anuncia cobrindo o corpo esguio dos manequins, que por detrás dos vidros das montras, deitam o seu olhar fixo sobre a pobreza que por ali abunda em jeito de entretenimento.
É o homem-estátua pintado de bronze; é o cão que segura no cestinho das esmolas enquanto o menino toca; é a ceguinha que canta; é o argentino que arrasta o tango no seu acordeon...
Um sem fim de ingénuas manifestações artísticas, que por uma moeda, vão acrescentando história à história daquela rua com quase dois séculos, rematada pelo Arco do Triunfo.
Já de regresso a casa, cruzei-me com uma menina que pedia esmola, à qual dedico este soneto:



Hoje fixei o meu olhar numa criança
Que a mão estendia na minha direcção
Pedindo esmola p´ra comprar o pão
Num olhar quase vazio de esperança



E eu respondi com um sorriso
- Vás dizer-me qual é a tua idade
-Tenho sete ! - disse com vivacidade
- Ajude-me senhora, que eu tanto preciso!

E aquela tão frágil figurinha

Escondida sob o casaco desbotado
Esboçou um sorriso de leve esperança



Porque a minha atenção ela já tinha
E no peito eu trouxe bem gravado
O humilde e meigo olhar dessa criança.






junho 08, 2011

O meu mar


Um quintal grande cheio de flores, que me dava acesso a uma varanda em madeira pintada de azul forte debruçada sobre a praia, foram palco da minha infância, tendo o mar como pano de fundo.


Abraçada à minha boneca de papelão desbotado, ali ficava  a observar aquela baía imensa salpicada de pequenas embarcações de pesca, que se movimentavam num lento arrastar das pás dos remos. Era o meu mar, que o céu vestia todos os dias de cor diferente.


E ali aprendi a admirá-lo pela sua grandeza, a amá-lo pela sua beleza, e a respeitá-lo pela sua bravura.


Adormecia e despertava no eco do rebentar das ondas que se estendiam ao longo da praia. Conhecia bem o seu murmúrio nas noites de maresia, e o assobiar do vento sul anunciando a aproximação de temporal.

Era o fiel companheiro dos meus silêncios...
Teria ele alguma vez reparado em mim?


Esta reflexão leva-me a um dos belos poemas de Sophia de Mello Breyner:


Mar sonoro, mar sem fundo mar sem fim.
A tua beleza aumenta quando estamos sós.
E tão fundo intimamente a tua voz
Segue o mais secreto bailar do meu sonho
Que momentos há em que eu suponho
Seres um milagre criado só para mim.





junho 07, 2011

As minhas paixões



Os últimos anos da minha vida profissional foram vividos com alguma ansiedade de ver chegar o dia de colocar na minha pasta os objectos pessoais que me observavam dos diversos angulos da minha mesa de trabalho, e que eu guardo com muito carinho pois são testemunho das muitas batalhas que travei, e que como vencida ou vencedora, saí sempre de cabeça erguida.
Esse dia chegou!
E eu despedi-me de tudo e de todos  com um  sorriso triste, direi mesmo, muito amargo. Para trás deixava um mundo maravilhoso onde cresci ao longo de 40 anos de trabalho e de muita dedicação.
 
Mas eu tinha pressa de partir...
O receio de não ter tempo de me encontrar comigo a sós para me espreguiçar na leitura de um poema, na contemplação do mar, ou na magia do som  das notas arrastadas pelas teclas do piano, deixava-me muito inquieta,  como se tudo na minha vida estivesse ainda por fazer…